O ‘Cidade de Deus’ de Jacques Audiard vence Cannes

Novo filme do diretor de 'O profeta' subverte conceitos da Sociologia e confirma os atributos estéticos de uma realização que flerta com a violência

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24 de maio de 2015

Dheepan hahah

Ao dar a Palma de Ouro do 68º Festival de Cannes para “Dheepan”, do parisiense Jacques Audiard, um filme capaz de dialogar com plateias quilométricas mundo afora pelo esperanto da ação física e do melodrama, o time de jurados chefiado pelos irmãos Joel e Ethan Coen abrem um precedente de conciliação entre eventos de hemodiálise estética do audiovisual e o público. Apesar do choraminguê da imprensa francesa, reclamando que seu queridinho, Hou Hsiao-Hsien, deixou de ganhar a Palma por seu desastrado “The assassin”, jornalistas de outros cantos do planeta Terra louvam a decisão dos Coen em reconhecer – num gesto de maturidade política – a relevância de um longa-metragem que celebra a esperança. Mais do que isso, o êxito de “Dheepan” em solo cannoise abre o dique de uma reconfiguração sociológica para o “mito” do estrangeiro desvalido.

Traga o caso para o Brasil…

Imagine o que seria da Sociologia nacional (e do Cinema Novo) se, no estudo dos êxodos migratórios, ao invés de sertanejos famintos, o fluxo de nordestinos em rota para as metrópoles para o Sudeste incluísse um cangaceiro com histórico de dezenas de mortes nas costas. Esta é a premissa do filme de Audiard. E ela desmontou cânones sociológicos da França.

Na trama, um guerrilheiro do Sri Lanka temido pelos inimigos e admirado pelos colegas de farda, cansa da guerra e parte pra outras terras – no caso, o Velho Mundo – à cata de sossego. Dheepan, o tal fardado, não tem culpa, não sofre de pesadelos, não perdeu parentes. Dheepan só matou quilos de gente. E cruza os mares para ser feliz em solo francês brincando de casinha com uma jovem e uma menininha de quem ele é obrigado a tomar conta. Nas sequências iniciais, Audiard – com toda a sua agudeza de observador do mundo cão trazida de “O profeta” (2009) – descreve com detalhes a bestial realidade onde Dheepan está enterrado até o pescoço. Conforme se sufoca mais e mais seu cotidiano, a barbárie vem bater à sua porta, como normalmente se dá em filmes de cunho social. A diferença é que, no belo conto de fadas de Audiard, o proletário tem uma peixeira afiada nas mãos.

Esses ganhos na discussão da atual condição de miserabilidade dos estrangeiros expatriados na Europa em si já tornariam “Dheepan” um filme premiável. Mas sua excelência técnica também se impôs, em cenas de perseguição e tiroteios capazes de evocar “Cidade de Deus”.

Mérito de um cineasta em ascensão.