O Clube

Expiando os Pecados de Deus através da Moral do Homem

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03 de outubro de 2015

club

Falar sobre religião jamais é assunto fácil, como se diz, é o mesmo que discutir ‘o sexo dos anjos’. Ou seja, é indefinido, por mais que alguns queiram afirmar ser masculino ou feminino. Quem diria que esta frase viria tão bem a calhar para debater “O Clube”, novo filme do chileno Pablo Larraín dos recentes cults “Tony Manero” e “No”. Um cineasta autoral que realmente pensa o cinema, desde qual tipo de câmera ou filtro usar, ao tratamento da imagem e som na pós-produção em filmes que fazem pensar. O espectador jamais vai sair incólume das sessões de seus filmes: ou porque “No” saturava as imagens em estática e sépia como se fossem as propagandas políticas de antigamente das quais o filme falava….Ou porque a tela poderia estar desbotada ou fora de foco propositalmente para falar de padres pedófilos e escroques em seu novíssimo filme cult “O Clube”.

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Surpreendentemente, tinha tudo para escandalizar, porém, ao invés disso, vai traçando sutilmente uma identificação entre o espectador e o grupo idoso de amigos simpáticos que aposta corrida de cães com os vizinhos da pacata cidadezinha costeira. Mal cogitam os concidadãos que os senhores são anjos caídos, todos acusados pela Igreja de algum crime, onde, ao invés de levá-los a público e julgá-los, a Instituição religiosa os isolou para autorreflexão dos próprios pecados. O equilíbrio desanda quando um novo membro a ser isolado lá é seguido por uma das crianças que ele violentou, agora adulto e perturbado, ameaçando botar a boca no trombone e eis que um inquisidor é enviado pelo Vaticano. – Apesar de nem todo o elenco estar perfeito, como os inconstantes coadjuvantes paralelos, vale ressaltar grande destaque para todos os padres, especialmente o difícil discurso sobre o inevitável e humano homossexualismo na Igreja, no papel de Alfredo Castro, e também da dúbia freira interpretada por Antonia Zegers.

Num roteiro de raríssimo desvelo e tato, as reviravoltas totalmente críveis vão desenrolando para além de qualquer moralismo, criando um senso de justiça humano onde a consciência é a filha de Deus que terá de segurar o rojão dos maiores fardos. Será que estas casas que passam incógnitas com supostos criminosos jamais julgados ou condenandos estão certas em existir? Trariam elas algum tipo de castigo ou redenção? E os que sofreram com os crimes dos falhos ‘homens santos’, não merecem justiça sem ter de se rebaixar ao mesmo nível? Imperdível crônica da Instituição que o homem criou para si ao começar a venerar as estrelas, a noção de pecado e de perdão vão se misturar num primor de imagens acinzentadas como a culpa carregada, fora de foco como as mentiras que eles contam para si mesmos, e num crescendo ascendente de sequências ritmadas de tirar o fôlego e dar um soco no estômago como uma ópera trágica e ao mesmo tempo sublime.

 

 


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