‘O condomínio’ onde o mau humor é inquilino inadimplente

Hilária peça de Pedro Brício evoca a cartilha das chanchadas de Ankito & cia. ao mostrar o cotidiano de uma Copacabana carente de empatia

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23 de setembro de 2018

condominio Pedro Brício O condomínio Pedroca

Rodrigo Fonseca
Carente de comédias capazes de arrastar milhões ao circuito sem abrir mão da crítica social e da reflexão, o cinema brasileiro deveria dar um pulinho no Sesc Copacabana… e correndo… pois a hilariante peça “O condomínio” – uma aula de inteligência na discussão sobre empatia – só fica em cartaz até o dia próximo dia 30. E tá espremidinha ali no mezanino do teatro carioca. Renderia série também, dada a riqueza de personagens (jamais reduzidos a arquétipos) que se amontoam no novo texto de Pedro Brício. O astro do filmaço “Os fins e os meios” (2014), já há tempos respeitado como um dos mais inquietos operários da cena teatral do Rio de Janeiro, dá aqui uma injeção de História nas veias do humor, recorrendo à cartilha das chanchadas. Sempre que o reator nuclear de gargalhadas Pedroca Monteiro ganha os holofotes, parece que Ankito (1924-2009), o mais injustiçado dos palhaços de nossa cinematografia, é quem está em cena. O mesmo se dá quando Sávio Moll usa seu vozeirão para modular as diferentes figuras que coabitam em um prédio de Copacabana: só que, em vez de Ankito, o ator, com ginga de Zé Pilintra, evoca Zé Trindade (1915-1990). Cada um dos tipos encarnados pela dupla puxa a saudade de um dos mitos da estética carnavalesca, inclusive um militar que remete aos vilões de José Lewgoy (1920-2003).
Tendo Claudia Marques na direção de produção e a dupla Jonas Sá e Gustavo Benjão no comando da música, o espetáculo monta um puzzle com fragmentos de nossa memória de uma Copa idílica, que se afogou na praia da intolerância. Pedroca e Sávio se azeitam com perfeição em cena. Mas a estrela maior é mesmo a dramaturgia, que usa uma intriga policialesca – o assassinato do cachorro de uma moradora – para criar uma Comédia Humana à moda Balzac sobre as falências afetivas no convívio nosso de cada dia.
E o chachachá no começo do espetáculo é um mimo à parte.

 


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