O Conto da Princesa Kaguya

Uma Sherazade nipônica dentro de um quadro de Monet

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21 de julho de 2015

Para se entender um filme há a necessidade de compreender a cultura de onde veio, mesmo, por exemplo, uma animação japonesa. Aliás, principalmente uma animação japonesa. Quiçá de época, em período de gueixas e cortesãs ou concubinas. Um período cheio de signos de retidão, sobriedade, honra e obediência ante os costumes. A sublime surpresa da indicação ao Oscar 2015 de animação para “O Conto da Princesa Kaguya” prova que há muita vida nos estúdios Ghibli para além da arte de seu fundador e supostamente aposentado Hayao Miyazaki, chamado de o Disney japonês, dos cults premiados “Meu Vizinho Totoro” e “A Viagem de Chihiro”.

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Para começar, todas as animações advindas desta verdadeira casa de ideias parecem obras de arte. E é assim mesmo que eles trabalham, pintando quadro por quadro, mesmo no computador, como se fosse à mão. E “O Conto da Princesa Kaguya” de Isao Takahata não deixa de elevar a família Miyazaki a outro patamar. Com inspiração impressionista como se desenhados a nanquim e coloridos com aquarela, o diretor dá vida a um roteiro e protagonista naturalistas sem jamais ser piegas ou politicamente correto. Traz camadas e camadas de contexto a cada delicada demonstração de minimalismo, como os grandes japoneses Kurosawa e Ozu imortalizaram em seus filmes de carne e osso. Cada relva a balançar no vento da noite, cada orvalho pendurado num ramo de flores, ou gotas de chuva a esparramar no fecundo solo sãos sentimentos mais humanos que qualquer diálogo.

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A história versa sobre a ‘Princesa’ do título que, na forma de um bebê que cresce bem rápido, é presenteada pela natureza a um casal camponês o qual, a princípio, fica maravilhado e satisfeito em apenas conviver harmoniosamente na simplicidade ao redor. Porém, algo tão puro, tão divino, acaba testando os pais a questionarem o quanto poderiam ‘dar’ à altura desta criança, como uma parábola sobre as dificuldades de se educar filhos em um meio extremamente material. Eles acham que a felicidade só pode advir do status na hierarquia social, e, como uma Sherazade de “Mil e Uma Noites”, a vida de Kaguya se transforma em vários pequenos contos, sendo ela própria um também, até se arrepender dele… Os príncipes-pretendentes, por exemplo, como ‘três Reis Magos’ cheios de oferendas, são impagáveis. Ela própria contando um conto e sendo um conto… até se arrepender dele. Pois todo o naturalismo do filme se torna um teste para saber onde reside a verdadeira natureza; o essencial despido do desnecessário. O valor da vida na ponta do pincel com o qual parece ter sido pintado cada take do filme como a um Monet, através de metáforas como as várias camadas coloridas do quimono a lhe vestir igual uma bela prisão pesada demais, ou as longas mangas que lhe dão asas.

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