O Delírio é a Redenção dos Aflitos

Lúdico crível para descrever a teoria do absurdo

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25 de janeiro de 2017

20° Mostra de Cinema de Tiradentes — Mostra Panorama Série 1

“O Delírio é a Redenção dos Aflitos” de Fellipe Fernandes já havia concorrido fortemente no último Festival de Brasília, onde só perdeu por um triz para a coqueluche “Estado Itinerante” de Ana Carolina Soares. E o filme de Fellipe com certeza deve ter dificultado a decisão do Júri, pois a proposta do filme apesar de não ser nova com certeza é trabalhada de forma criativa: a história gira em torno de uma família que mora em edifício condenado que pode cair a qualquer momento e eles são os últimos remanescentes que ainda não se mudaram. A mãe da família  (interpretada pela excelente Nash Laila dos incríveis “Amor Plástico e Barulho” de Renata Pinheiro e “Deserto Feliz” de Paulo Caldas) não aguenta mais cobrar de seu marido atitudes necessárias para a mudança, e enquanto isso cria a filha praticamente sozinha e trabalha arduamente enquanto tem pesadelos constantes. O teor dos pesadelos são o ponto de virada, digamos, feminista (mas este argumento já foi tanto defendido quanto contestado pelas próprias feministas), que irá levar o roteiro a um lugar inovador e lúdico.

É melhor não adiantar mais nada para não estragar nenhuma surpresa, mas basta dizer que uma das sequências mais lúdicas, toda em plano-sequência, foi muito bem realizada, de modo até a levantar interessantes questões técnicas de como foi feita, brincando com o primeiro e segundo planos, entrando e saindo de foco, e guiando o espectador através do barulho que a protagonista está causando para poder se libertar da prisão social que vive. Seria ela louca apenas porque sofre de pesadelos e precisa sujar as próprias mãos já que o marido não faz nada?

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É na atuação de Nash e no uso interessante de sombras e sons para uma atmosfera opressora e sem saída que o sutil realismo fantástico funciona, erguendo a realização para outro patamar principalmente em sua terça parte final, sem precisar de quaisquer efeitos especiais, apenas pura técnica funcional para o espectador acreditar nas reações ao absurdo filosófico à la o Mito de Sísifo como escrito por Albert Camus.