O Dia Depois

Entrelaçamento do real

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23 de outubro de 2017

Quem diria que um caso extremamente atual como o de Harvey Weinstein e seu assédio a atrizes de Hollywood, que veio a público há pouco tempo por denúncia das vítimas, poderia intensificar e de forma tão rápida se refletir na telona em um filme alheio a tudo isso: “O Dia Depois” de Hong Sang-Soo, exibido na 41ª Mostra de Cinema de São Paulo. Mesmo que não tenha sido esta a intenção quando o foi realizado, não dá mais para evitar o elefante branco na sala, visto que é um filme essencialmente sobre assédio no ambiente de trabalho. Isto porque o escândalo americano de Weinstein abriu as portas para se debater mundialmente vários tabus necessários de serem abordados, como assédio e relações de poder em condições hierárquicas, bem como tráfico de favores e dirigismo sensacionalista da imprensa internacional, a qual inibe que estes acontecimentos ajudem de fato quem é mais importante: a vítima (ao invés de dar ainda mais publicidade ao perpetrador).

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Mas o fato é que o aclamado diretor coreano Hong Sang-Soo passou por uma experiência metalinguística e também polêmica nas manchetes de jornais internacionais, para ter a ideia de fazer “O Dia Depois”, porém nesta ocasião de origem diversa: ele confessou ter um caso extraconjugal com a atriz Kim Min-Hee, depois que se conheceram no primeiro trabalho conjunto, o brilhante “Certo Agora, Errado Antes” de 2015. Isto alcançou um pandemônio midiático recente, e o mais inesperado ocorreu: virou matéria-prima de novas parcerias entre os dois amantes, transbordando realidade em ficção na telona e dando vida ainda mais dinâmica a seus filmes.

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Na verdade, independente de polêmicas, Kim Min-Hee é decerto uma das revelações do ano a ter aportado com o difícil marco de quatro longas-metragens no circuito brasileiro apenas em 2017, sendo quase todos dirigidos por Hong Sang-Soo, com exceção apenas do cult pop “A Criada” de Park Chan-Wook. O fato é que Min-Hee se tornou a artista-assinatura de Sang-Soo, e fãs do diretor possuem a sorte de ele ser ainda mais prolífico do que Woody Allen, às vezes com até mais de um filme por ano… O que também produz uma faca de dois gumes em relação comparativa, quando essas obras aportam quase que simultaneamente umas com as outras.

Como bom filósofo do tempo e da simetria espacial da memória, Sang-Soo costuma trabalhar a montagem de seus filmes com uma complexidade bastante oposta à simplicidade de suas tramas, sempre sobre desencontros existenciais entre casais hesitantes no amor, que correm num familiar naturalismo habitual. Os diálogos são ponto forte, com uma estranheza de fala que constrange os respectivos personagens em cena e a plateia junto com eles, e é assim que opera o tipo de humor do cineasta. E esta fórmula personalíssima é tão precisa que o diretor às vezes chega a ser acusado de sempre realizar versões diferentes sobre o mesmo filme, bem como Woody Allen, com o qual compartilha mais similaridades do que apenas a alta produtividade.

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Então, vejamos a vantagem de seus filmes terem ganhado um extracampo diegético com a vida em refletirem uma estranha realidade, desde o flerte inicial com a atriz em “Certo Agora, Errado Antes”, os consecutivos “Na Praia à Noite Sozinha”, “A Câmera de Claire” e agora “O Dia Depois”, todos dando continuidade como uma só corrente ao tema do affair entre cineasta e sua musa de inspiração autoral. Enquanto “Na Praia à Noite Sozinha” tomava certa distância do adultério, acompanhando a personagem de uma atriz que viaja para a Alemanha para tentar se isolar um pouco do peso de se relacionar com um homem casado; “A Câmera de Claire” já encarava de frente o adultério, acrescentando o conflito direto com a personagem-esposa do cineasta, também produtora dele, e com quem todos precisavam continuar a manter uma relação profissional saudável pelo bem da carreira dos envolvidos. Mas é com “O Dia Depois” que o diretor sai um pouco da abstração mais filosófica com que trabalha e dialoga com seus personagens e adota de fato uma responsabilidade fílmica ao assumir sua vida na frente das câmeras.

“O Dia Depois” versa sobre a nova funcionária de uma editora literária (metáfora para a produtora cinematográfica que já havia figurado literalmente nos filmes anteriores), na qual o editor-chefe a contratou para substituir sua ex-amante, que sumiu após ele não ter tido coragem de se separar da esposa. A diferença nesta quase sequência livre de metáforas da realidade é que a nova personagem de Min-Hee não é mais a mesma figura da amante de verdade, e sim da nova funcionária que é confundida com a amante, e possui uma força incólume que não vai se permitir ser a próxima vítima do assédio. É nesta inversão catártica que Sang-Soo toma para si a responsabilidade crítica de analisar sua própria situação perante toda a indústria audiovisual e o que acontece nos bastidores de poder. Talvez um aviso para retirar o glamour da situação que ainda atrai tantas pessoas a se encantar com a vida de estrelato e esquecer o quanto a arte se confunde com chances bem altas de perder sua identidade e sua bússola moral no caminho…

Aliás, também é digno de menção uma analogia com a grande lição dos filmes do mestre do cinema Béla Tarr, nas últimas décadas codirigidos com sua esposa Agnes Hranitzky, ensinando que montagem não se faz apenas com a edição do filme em mil pedacinhos, e sim igualmente com enquadramentos e closes, regra que Sang-Soo segue à risca. Explicando melhor: ao invés de filmar uma tomada com mais de uma câmera e depois editar as várias filmagens de cada ângulo, esta técnica consiste em filmar longos planos-sequências e apenas ajustar a câmera durante a filmagem para diferentes enquadramentos naturalmente seguindo o seu movimento. Ou seja, ao invés de filmar um personagem conversando, cortar e depois filmar o outro escutando e respondendo, a câmera pode transcorrer em travelling de um lado para o outro onde cada personagem estiver, redimensionando o close em cada um, criando uma ilusão de plano e contraplano. Tal técnica é ainda acrescida aqui de uma eficiente fotografia em preto e branco, que Sang-Soo volta e meia retoma em seus filmes de forma intermitente, outra similaridade com os filmes de Béla e Agnes.

Esta brincadeira com os tempos da imagem são contextualmente coerentes com os jogos de memória que a ficção por simetria de Sang-Soo gosta de aplicar. Este fator gera cenas contrapostas com diálogos extremamente semelhantes, por exemplo, mas que podem ter acontecido tanto no passado quanto no futuro, em relação à linha cronológica principal que ele esteja seguindo. Pode parecer confuso, mas jamais nos filmes do diretor, pois ele utiliza de maneira sutil e módica, apenas invertendo a linha temporal quando quer demonstrar uma mudança relacional dos personagens e que tipo de diferenciação de valores podemos dar à memória no tempo. Nesta hipótese, o diretor utiliza deste recurso para ampliar ainda mais o abismo em que a personagem de Min-Hee segue impassível na sua irredutibilidade perante as indiscrições do protagonista semiautobiográfico, como sinônimos respectivamente de que o filme pode passar um grande ensinamento para terceiros, ainda que aquele que o realize seja humano e passível de cometer os mesmos erros.

Muito interessante e digno de (psico)análises, “O Dia Depois” se eleva como uma cereja do bolo da trilogia 2017 (até agora, pelo andar da carruagem…) sobre o entrelaçamento do real na carreira de Sang-Soo, só não superando em sua filmografia da década os irretocáveis “Certo Agora, Errado Antes” e “Você e os Seus”.