O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki

Rocky Balboa da Finlândia

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26 de outubro de 2016

“O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki” de Juho Kuosmanen, vencedor de melhor filme na Mostra Um Certo Olhar de Cannes, é um bom filme sobre um famoso pugilista finlandês da vida real, homônimo ao Título, Olli Mäki. Apesar de não ter sido conhecido necessariamente fora de seu país de origem, e nem ter chegado a acumular um número grande de vitórias, sua vida pessoal simbolizou tudo o que o país passava no período de transição capitalista na década de 60.

Todo fotografado em preto e branco para parecer retrô, e com um incrível trabalho do ator Jarkko Lahti em ganhar massa muscular e depois perder peso para se encaixar no arco dramático do personagem, o fator técnico mais interessante de fato é o uso da luz na fotografia em P&B, pois a direção faz questão de estourar a iluminação em inúmeros momentos, dando mais contornos às cenas e até transformando a cor numa saturação mais puxada para o sépia do que para a escala de cinza. Decisão muito acertada esteticamente. Além disso, há duas histórias concomitantes, uma mais interessante que a outra, não pelo conteúdo ou identificação com o espectador, porém mais pela execução das mesmas.

Uma é o romance com a namorada/noiva do pugilista, claramente inspirado na forma de contar a história no arquétipo clássico de “Rocky Balboa”, do qual filmes de pugilista não tem como errar caso sigam direito. O outro lado do filme é mais interessante e original, meio torpe, sobre a relação viciosa do pugilista com o seu agente/treinador, que havia sido o maior pugilista da história da Finlândia até Olli aparecer. É ele quem meio que mina a carreira do amigo, a começar impedindo que ele lutasse na categoria de peso correto para ele, pois era a mesma categoria que o próprio havia sido campeão na geração anterior e não queria que Olli lhe roubasse nenhum recorde. Vem desta decisão, por exemplo, o injusto e pesado emagrecimento que o protagonista é obrigado a encarar, dando-lhe uma desvantagem sobre sua praxe antes vitoriosa. Nisto a fotografia P&B quase sépia acerta em closes bem próximos do corpo e movimento muscular do personagem para que o público realmente sinta a transformação corporal. E ao mesmo tempo é do amigo treinador que vem alguns dos melhores contrapontos catárticos. Claro que o romance não poderia ser prejudicado, pois muitas vezes é o que vende ingresso, e o filme devolve a história para o casal, o que é doce e bonito, mas não especial nem ritmicamente original.

40ª Mostra de São Paulo 2016

O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki (Hymyilevä Mies)

Finlândia, 2016. 92 min

De Juho Kuosmanen

Com Jarkko Lahti, Oona Airola, Eero Milonoff

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3