O Espelho

O que não se vê quando se está diante de si mesmo

por

25 de outubro de 2015

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Texto por Filippo Pitanga e Samantha Brasil

“O espelho” do estreante Rodrigo Lima, como parte dos quatro filmes presentes na Mostra da experiência imperdível da Tela Brilhadora, é uma ótima adaptação do conto Machadiano de mesmo nome que reflete sobre identidade e a nossa imagem perante o outro e perante nós mesmos. Cheio de inovações visuais e pouquíssimos diálogos, muito mais leituras poéticas livres narradas em of, o filme traz uma tensão crescente que vai virando quase um suspense na busca do eu, cheio de superfícies reflexivas, como cachoeiras, espelhos d’água naturais, janelas, portas de vidro, ou mesmo duas palmas da mão cheias de água a refletir um rosto…

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Mas enquanto um lado da história debate a busca interna de um ser consigo mesmo, há a contraparte do protagonista perturbado, na pele da interpretação misteriosa de Ana Abbott, que agrega ao fio condutor não apenas a intenção simbólica de um par romântico, pois bem se sabe que o espectador se conecta melhor com uma história sempre que há um casal por quem se lutar até o fim da projeção, mas como também simboliza inúmeros significados mais complexos. Tanto uma busca pelo amor perfeito, quanto o passado de um possível amor perdido, até mesmo, a partir dos slides familiares do passado, poder significar o ideal de mulher, uma figura edipiana que vem desde a mãe. Uma Alice através do Espelho.

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Esta intenção mais abstrata advém desde a primeira cena focalizando o pico altíssimo nas montanhas chamado de “Dedo de Deus” em Teresópolis, já que os quatro filmes da Tela Brilhadora contém metáforas com pedras e começam com algum enquadramento rochoso. Esta comunicação com o Todo-Poderoso, como na pintura do teto da Capela Sistina de Michelangelo onde o dedo do homem tenta encontrar o dedo de Deus, diferente de ser uma alusão religiosa, fala mais ao deus interno de cada um, o dono da existência de si, e como ser dono destas verdades múltiplas como se fôssemos um espelho fragmentado pode ser um fardo pesado demais para sustentar. Ao menos sozinho. E esta linguagem experimental contém algo de audacioso que o cinema precisa muito, e dialoga bastante com as experimentações de forma e conteúdo que os outros filmes da Tela Brilhadora também almejam alcançar, com resultados variantes, porém decerto vibrantes e exitosos no que tange “O Espelho” e “O Prefeito”, as duas obras cujo pacote vem mais completo e redondinho tanto para o público mais artístico quanto para o comercial não torcer completamente o nariz — apesar de talvez ter sido justamente esta a intenção/brincadeira, especialmente com “Garoto” de Julio Bressane.

39ª Mostra de SP 2015 – Mostra Competitiva Nacional

O Espelho (idem)

Brasil, 2015. 65 min

De Rodrigo Lima

Com: Ana Abbott e Augusto Madeira


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