O eterno retorno do debate de Vazante

Filme controverso que estreou em 2017 na edição de aniversário do 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro continua criando provando a relevância de debater os filmes

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13 de outubro de 2020

Em meio a todo esse desmantelamento das políticas públicas e as derrotas sucessivas no campo de batalha da macropolítica, eu sempre reitero acreditar piamente que será o avanço irrefreável das micropolíticas e suas questões identitárias que irão ganhar a guerra.

Por isso mesmo talvez não seja um surpresa, logo neste momento de cerceamento ao cinema, e diante da crise enfrentada pelos Festivais e Mostras, que volta e meia o multipolarizado debate sobre o Filme “Vazante” de Daniela Thomas seja citado quase o ano inteiro, mesmo já fazendo 2 anos desde que aconteceu no 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Acontece que muita coisa que lá aconteceu foi tirada de contexto ou de proporção, fazendo com que a lembrança da maioria das pessoas remeta a um suposto aspecto “violento” do debate… E qualquer pessoa que sequer tenha aberto a boca no debate foi tachada equivocadamente de violenta, até mesmo eu, que sou uma pessoa notoriamente diplomática e conciliatória, como não deixei de sê-lo igualmente no debate de “Vazante”.

Mas, sinceramente? A verdade é que o cinema não é estranho a tensionamentos desde sempre (algumas figuras míticas do cinema foram os maiores tensionadores, inclusive, vide Glauber), e as visões plurais são o que possibilita um encontro de ideias e o despertar de empatia pelo olhar do outro. Cinema são encontros. Se fecharmos esses tensionamentos numa bolha, ela estará fadada a estourar em si mesma e jamais iremos ter diálogos.

Por isso mesmo, logo agora durante o 19° Goiânia Mostra Curtas, uma grande amizade profissional a quem muito respeito veio me dizer na mesa de jantar ontem que por acaso reviu o debate de “Vazante” no youtube por essas semanas, e veio elogiar minha postura em ter conseguido manter meu crivo crítico com cordialidade e justamente num aspecto conciliatório. Lavou minha alma. Porque eu acredito sim que debates existem para tensionar pluralidades afora do perigo da história única, pois se cada fato só for visto sob a égide de um único olhar, ele poderá correr o risco de pouco representar ou mesmo a quase nada. E apesar da visibilidade de meu trabalho e do fato de eu constantemente dar a minha cara à tapa publicamente também fazerem de mim um alvo ambulante, pelo que já fui caluniado e difamado errônea e injustamente por algumas pessoas — inclusive pessoas que, elas sim, costumam ser bastante violentas — é um alívio ter o espírito conciliador volta e meio reconhecido pelos olhares de quem mais respeito e admiro neste meio. Continuemos a tensionar, sem deixar os afetos de lado, claro, já que uma coisa não exclui a outra. Até porque quem não tensiona é gado, e foi gado quem elegeu alguns “representantes” por aí que a nada representam — então vamos debater mais e exercer a empatia aos olhares plurais antes que uma nova eleição venha passar como um rolo compressor novamente por cima de nossas vontades individuais e também coletivas, sejam elas iguais ou diferentes, mas sempre em prol da democracia.

Confira a sequência do debate aqui (a parte 1 levará automaticamente às partes seguintes abaixo):