O Fantasma da Sicília

Longa italiano traz caso real às telonas através de fábula sombria repleta de metáforas

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07 de setembro de 2017

Novo longa-metragem da dupla Antonio Piazza e Fabio Grassadonia (do premiado “Salvo – Uma História de Amor e Máfia”), “O Fantasma da Sicília” é baseado na história real de Giuseppe Di Matteo, um menino de 13 anos sequestrado pela máfia em 1993 como resposta a seu pai mafioso ter se tornado informante da promotoria estadual. Após dois anos de cárcere, Giuseppe foi estrangulado e dissolvido em ácido.

Entre metáforas mitológicas e elementos de contos de fada, Piazza e Grassadonia transformam uma história de horror numa fábula sombria em que há espaço para o primeiro amor adolescente: Luna (Julia Jedlikowska), colega de classe apaixonada por Giuseppe (Gaetano Fernandez), se rebela contra os pais, a escola e a polícia pelo direito de nunca desistir de encontrar seu amigo numa cidadezinha onde todos parecem tê-lo esquecido com o tempo. Nesta cruel e longa jornada, os jovens enamorados tornam-se fantasmas de si mesmos, ao passo em que Giuseppe se transforma num fantasma para o povo do vilarejo da Sicília, exceto para Luna.

Com uma estética sofisticada, “Sicilian Ghost Story” (no original) apresenta a floresta como uma personagem importante da narrativa, já que carrega uma forte dualidade em sua simbologia como um universo mágico repleto de mistérios e animais afáveis, e também como um lugar obscuro onde a natureza oprime com suas pedras e árvores de raízes e galhos assustadores. O lago é um componente importante da floresta que funciona como uma espécie de portal, transportando Luna para o cativeiro de Giuseppe em seus sonhos e para a realidade depois de um episódio numa tarde com seu pai, além de ser o local onde termina o que restou do garoto.

São muitas as semelhanças entre “O Labirinto do Fauno” e “O Fantasma da Sicília”, porém a principal é a mensagem final passada por meio das metáforas em cada longa: a esperança que o amor leva a um mundo sombrio e desenganado, seja pelo fascismo espanhol, seja pela opressão da máfia sobre a Sicília na década de 90. Como Ivana Baquero na obra-prima de Guillermo del Toro, quem domina a tela aqui é Julia Jedlikowska, que mergulha de cabeça ao interpretar a heroína Luna com a mesma maturidade que sua personagem adquire no desfecho do filme. Ainda que algumas sequências conceituais interrompam o ritmo da película e a tornem um pouco mais cansativa do que poderia em duas horas de duração, trazem o lirismo característico de Piazza e Grassadonia a uma história tão verdadeiramente crua, cujo peso foi amenizado pela escolha do tom fantástico.

 

 

O Fantasma da Sicília (Sicilian Ghost Story)

Itália / França / Suíça – 2017. 122 minutos.

Direção: Antonio Piazza e Fabio Grassadonia

Com: Julia Jedlikowska, Gaetano Fernandez, Corinne Musallari, Vincenzo Amato e Sabine Timoteo.