Caça-Fantasmas

Rascunho de filme-pipoca em forma de bandeira política, o novo (e constrangedor) 'Caça-Fantasma' confunde feminismo com caricatura

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16 de julho de 2016

GB Ghostbusters

Celebrizado no imaginário pop como sendo uma “metacomédia”, partindo da junção de humoristas de TV em um universo capaz de evocar aventura, sobrenatural e horror, Os Caça-Fantasmas (1984) simbolizou um ato de transgressão na Era Ploc – os anos 1980 – na possibilidade de mesclar gêneros sem levar os radicais de nenhum deles a sério. Tal operação era, à época, um gesto estético, potencializando a corrente vigente de fantasia juvenil. E, mais do que isso, havia ali uma trupe formidável de atores no ápice de seu desejo de provocar. Nada disso se faz presente na releitura “politizada” que este cult sabor chiclete ganhou agora, em 2016, pelas mãos de Paul Feig, um ator e diretor, notabilizado na realização com Missão Madrinha de Casamento (2011), cujo procedimento como cineasta beira dimensões pueris. Na lógica de Feig, mudar o sexo de enredos de natureza masculina já basta para render uma boa comédia.

Ghostbusters 13

É isso – e apenas isso – o que ele aparece de diferencial em seu Ghostbusters: temos quatro moças onde antes havia quatro rapazes. Tá! Ok! Parabéns! Uma aparente equalização de gêneros se faz notar: mas qual é o ganho dramático dessa operação para o debate do lugar da mulher na sociedade, dos sentimentos femininos, do corpo da mulher? Nenhum. Nada. É só piadinha. Piadinha barata. Estamos diante de quatro perfis femininos sólidos, vivos, tridimensionais, ou apenas de esboços de personagens? A resposta é: esboço. Caricatura. Uma constrangedora caricatura num filme sem molejo, visualmente poluído, reiterativo.

 

Se alguém algum dia resolver rodar um reboot da franquia Rocky Balboa substituindo Sylvester Stallone por – como exemplo, uma estrela da hora – a inglesa Emilia Clarke, a Daenerys Targaryen, de Game of Thrones, isso poderia dar certo, desde que se legitimado pelo intuito de retomar (e refazer) o que a história do Garanhão Italiano tem de mais precioso. Ou seja, ser uma Cinderella social. Se uma Rocky surgisse, sobretudo com uma atriz talentosa como Emilia, discutindo o boxe como uma instância de inclusão, a provocação já estaria valendo… e, dela, poderia brotar um grande filme. Dessa premissa talvez brotasse um filme com fôlego refletir sobre a condição feminina naquele ambiente, como Menina de Ouro (2004), de Clint Eastwood, conseguiu, e de modo soberbo. Mas Paul Feig não tem essa dimensão reflexiva em seu cinema. Ele quer apenas se divertir pondo Melissa McCarthy (uma das piores atrizes já reveladas na comédia americana) atirado feixes de prótons em assombrações. O feminino ali não tem tônus. Logo… não existe nem feminismo. Existe só um arremedo. Um arremedo sexista da mulher, do heroísmo, do cinema.

Kate Ghostbusters

Há dois bons atores em cena: Chris Hemsworth, o poderoso Thor, tirando sarro de sua própria condição de macho alfa, e a delícia Kate McKinnon, roubando todas as cenas no papel de Holtz, a única das Caça-Fantasmas com graça para fazer rir. Mas os dois são bons demais para um filme cuja trama é embolada entre idas e vindas e muita, mas muuuuita repetição de piadas, além de um esforço quase doentio em esculhambar a representação masculina. Todos os homens do filme – à exceção de um personagem-surpresa, vivido por um dos astros do filme original – são frágeis, emasculados, perdedores e de caráter duvidoso. E o enredo em que esses estereótipos de gente aparece é difícil de ser compartilhado, por não ter clareza alguma.

 

No filme de 1984, três cientistas que pesquisam o sobrenatural resolvem fazer de seus estudos uma carreira investigativa, inspecionando a atividade do Além em Nova York e prendendo espíritos zombeteiros. E isso se dava em meio à chegada de um espectro de poder incalculável, Gozer, que abriria os portais para os mortos entre nós.

Ghostbusters-2016-Trailer.png Chris Hemsworth

Aqui, no novo filme, ficou a parte das cientistas, na associação entre a engenheira Holtz e duas antigas amigas há muito separadas após a publicação de um livro sobre fantasmas: as doutoras Erin (Kristen Wiig, totalmente perdida) e Abby (Melissa, com as caretas de sempre). A elas, juntar-se-á uma bilheteira do metrô: Patty (Leslie Jones, outro oceano de caretas). Hemsworth vive o secretário bonitão (mas afetado até a medula) do grupo. Se existe uma missão para essa turma, esta se resume ao enfretamento do quarteto contra um ocultista, Rowan (Neil Casey), que promove terrorismo sobrenatural com aparelhos (com aspecto de bomba) capaz de atrair seres das trevas.

 

Nada disso é contado com ritmo. O conceito de “metacomédia” na gênese da série aqui dá lugar uma aventura que não leva nada a sério, nem a ideia de boa atuação, descambando para um número musical que mais parece um Show dos Leopardos, com Hemsworth incorporado. Nada carregada a pujança do que vimos nos anos 1980, com o agravante de participações dos astros do primeiro longa em papéis rabugentos, sem viço. É um desrespeito puro com o patrimônio simbólico da cinefilia.

Os Caça-Fantasmas 1984 Ghostbusters

No passado da franquia, era diferente, havia potência. Catapultados para o estrelato à força do prestígio popular do humorístico Saturday Night Live, na TV, na emissora NBC, os comediantes Bill Murray e Dan Aycroryd começaram a buscar veios cinematográficos para capilarizar sua graça em outras mídias e formatos, tendo como parceiro Harold Ramis (1944-2014), um roteirista que vinha do Second City TV, no mesmo canal. Ramis lançou-se como realizador em Clube dos Pilantras, trazendo Murray num papel coadjuvante que ajudou a fazer dele um ator cult nas veredas da gargalhada. Em paralelo, Aycroyd alcançava notoriedade com Os Irmãos Cara de Pau (1980) e Estranhos Vizinhos (1981), numa parceria com John Belushi (1949-1982). Os dois despontavam como garantias vivas de salas lotadas, enquanto Ramis se sofisticava como roteirista e diretor. A bola relação entre os três fora das telas era um convite a uma sinergia criativa.

Fanático pelo tema da paranormalidade, alimentado em sua mente pela série Além da Imaginação (1924-1975), de Rod Serling, Aycroryd concebeu um projeto de longa no qual um esquadrão tático parecido com a SWAT viaja pelo tempo combatendo espectros zombeteiros. Belushi e John Candy (1950-1994) estariam no elenco com ele. Mas depois que Belushi morreu o projeto tomou outros rumos. Buscando viabilizá-lo, agora com um novo elenco, Aycroryd procurou um talento em ascensão da comédia, o diretor Ivan Reitman, de Almôndegas (1979), para que este avaliasse a proposta. Assustado com o quão altos seriam os custos para levar aquela ideia às telas, Reitman sugeriu mudanças a fim de barateá-las, trazendo a narrativa para o presente, num tom mais realista e ainda mais cômico.

Ghostbusters medo

Como resultado, brotou a proposta de unir três cientistas trapalhões especializados em fenômenos ocultos num grupo de caçadores de manifestações espectrais. Nasceu ali a semente de Ghostbusters. O longa saiu do papel em 1984, ao custo (alto para a época, em especial para um longa nas raias da comédia) de US$ 30 milhões, faturando uma fortuna tão assombrosa quanto seus fantasmas: US$ 295 milhões. Isso deu ainda mais fama a seus protagonistas, que uniram ao time básico um quarto integrante, cujo intérprete foi Ernie Hudson.

 

Do êxito do filme nasceu uma série de desenhos animados e um segundo longa, que chegou ao circuito cinco anos depois, sem ter a mesma rentabilidade, mas, ainda assim, dando lucro alto, ao arrecadar US$ 215 milhões. Durante anos, houve especulações para um terceiro tomo da saga do Dr. Peter Venkman (Murray) e seus parceiros. Mas nada ganhou solidez até que a ideia de um reboot feminino surgiu como veio para poder repaginar a franquia. Mas, em termos estéticos (e éticos) não foi além de uma molecagem. Sua largada nas bilheterias nos EUA foi boa, alimentada por uma campanha de mídia maciça. Mas seu sabor de pastiche é amargo demais.

 


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