O Farol

“Memórias e possibilidades são ainda mais hediondas do que realidades.” H. P. Lovecraft

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12 de fevereiro de 2020

Atenção: Este texto pode conter spoilers sobre a trama*
1389037.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx              Robert Eggers definitivamente é um profissional que não subestima sua audiência. Se com seu primeiro filme A Bruxa (2015), ele já dava sinais de que entregar uma mensagem clara não era seu objetivo, em O Farol esta premissa se consolida. Com uma estética análoga ao Expressionismo Alemão da década de 20 e uma fotografia inspirada na arte de Jean Delville e Arnold Bocklin, o longa-metragem vem incitando as mais diversas e polêmicas discussões.

Logo no início da exibição a aparente “fábula de isolamento” de dois homens presos em uma ilha mostra-se algo muito mais complexo. Ao longo de 109 minutos, Eggers utiliza a “atenção involuntária” do espectador dirigindo a mente do mesmo, com uma maestria digna de orgulhar Hugo Munsterberg. Ao fim do longa-metragem não é possível para o espectador afirmar com absolutismo qual a mensagem que o diretor e roteirista quis transmitir, assim como também é impossível que o público chegue a uma conclusão definitiva a respeito do que assistiu.

Com apenas dois personagens em cena, Thomas Wake e Ephraim Winslow, interpretados brilhantemente por Willem Dafoe e Robert Pattinson respectivamente, a trama é desenvolvida em um ritmo lento, transitando entre a violência e o erotismo, e com um incontável número de cenas escatológicas e animalescas, que aproximam a produção diversas vezes a algo similar ao terror gore. A fotografia em preto e branco e a trilha sonora atuam como personagens em diferentes momentos, auxiliando na construção da atmosfera de tensão resultante da “convivência forçada” apresentada em tela.

Fã do terror cósmico de Robert Chambers (autor de O Rei Amarelo) e Lovecraft, Eggers teve bastante êxito ao abordar em sua obra a obscuridade das relações interpessoais em condições extremas. Wake representa inicialmente o lado “dominante” da relação, enquanto ao Ephraim de Pattinson cabe o papel do novato humilhado e explorado. Já os distintos símbolos presentes na história – sereia, água, pássaros e o próprio farol – contribuem para construir a paranoia das personagens e leva-las a atitudes extremas, mostrando como a solidão pode ser o real significado do horror. É importante destacar a entrega dos atores na construção de seus papéis, o que resultou em atuações complexas e de enorme qualidade, injustamente esnobadas pela maioria das premiações audiovisuais deste ano.

Um enredo complexo, repleto de simbologia, com diálogos inspirados em documentos históricos e cujos narradores não possuem nenhum tipo de credibilidade, não poderia resultar em algo diferente de uma obra com variáveis interpretações. Muito se especulou sobre qual seria a mensagem da obra, desde explicações psicológicas como a “Teoria das Polaridades” de Carl Jung, até mesmo a mitologia grega e a fábula de Proteu. Houve também grande especulação se os dois personagens em cena seriam a mesma pessoa, e tudo não passava de um delírio.

A intenção de Robert Eggers de fato parece ter sido criar uma obra em que cada espectador pudesse ter uma interpretação diferente, de acordo com seu conhecimento e percepção – algo que ele já havia feito em A Bruxa. Mas, mais importante do que “encaixar” O Farol em alguma teoria que simplifique a compreensão do filme, é reconhecer os importantes elementos que ali foram abordados. A idealização da masculinidade e a necessidade de poder e autoafirmação são fios condutores de toda a trama e da relação entre Winslow e Thomas. Tal idealização não se restringe apenas à masculinidade, mas também ao desconhecido – se forem considerados o próprio farol e o passado de ambas as personagens. A vulnerabilidade explanada apenas em situações extremas ou quando estão embriagados, é usada para desconstruir a imagem e dureza que eles se esforçam em manter, mesmo quando uma esfera de erotismo os envolve, e há uma clara contradição do parecer e ser.

Mais do que teorias ou uma história complexa, O Farol é um filme sobre solidão, idealização, frustração e negação, ou seja, sobre emoções e relações humanas. E mesmo para quem, assim como esta que vos escreve, entendeu que Winslow e Wake são a mesma pessoa, este conjunto de sentimentos se aplica. Afinal, não há nada mais assustador do que confrontarmos nossa solidão, nós mesmos, nossas escolhas e principalmente as frustações do que idealizamos para nossas vidas. O Farol é acima de tudo, uma belíssima e dura catarse autocrítica.

*O filme recentemente foi indicado ao Oscar de melhor fotografia, e ganhou inúmeros reconhecimentos em premiações do cinema independente ou de gênero: No Independent Spirit Awards, o Oscar do cinema independente, o filme ganhou os prêmios de melhor fotografia para Jarin Blaschke e melhor ator coadjuvante para Willem Dafoe; e no Chainsaw Awards, premiação do cinema fantástico e de terror promovida pela Revista especializada Fangoria, o filme levou também o prêmio de ator coadjuvante para Dafoe, além de melhor lançamento em circuito limitado e melhor ator para Robert Pattinson.

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