O Farol (The Lighthouse)

O Erotismo do Medo

por

29 de outubro de 2019

73388362_514822749353256_9119803169709228032_n

Esse é um texto poético (em português e inglês, logo abaixo*) e uma análise semiótica do gênero terror, vista a partir da ótica da relação entre o desejo e o medo através do filme “O Farol” de Robert Eggers. O longa conta com Robert Pattison e Willem Dafoe no elenco praticamente formado de maneira intimista apenas pelos dois (com exceção de flashbacks e delírios), e é produzido pelo grande produtor brasileiro Rodrigo Teixeira e a RT Features. Rodrigo também produziu outros filmes internacionais como “A Bruxa”, dirigido pelo próprio Robert Eggers, e “Me Chame Pelo Seu Nome” de Luca Guadagnino, bem como outros exemplares de terror, como da cineasta brasileira prodigiosa Gabriela Amaral Almeida de obras como “O Animal Cordial” e “A Sombra do Pai”. Agora, confira o texto logo abaixo:

O Erotismo do Medo

Por que as pessoas temem os seus desejos? Por que há uma inibição natural para que não performemos nosso desejo em público e, algumas vezes, existem interditos proibitórios morais até mesmo para nossas situações mais privadas que permitimos nos auto-impor? Durante muito tempo a História, principalmente através da religião e da arte, passou a culpar o corpo das mulheres por esse desejo, sem quase nunca responsabilizar igualmente o corpo masculino. Como se o desejo do homem fosse uma entidade autônoma e involuntária, um impulso animal irrefreável desprovido de qualquer responsabilidade na sociedade patriarcal.

Screenshot_20191029-113427_Google

E, muito antes de nomearmos historicamente outros desejos LGBTQIA+ ou não binários, o corpo da mulher durante muito tempo não foi considerado como agente de subjetividades, apenas um objeto disparador de reações adversas nos homens, onde a nudez da mulher na religião e na arte era ou sacra e virginal ou quase um bem ou produto para a vontade masculina – nunca da própria mulher.

A solidão, o tédio e o ócio eram vilões do homem, pois eram o bastante para justificar que eles perdessem o controle sobre si mesmos e atacassem as mulheres (atacavam outros homens também, mas esta hipocrisia jamais poderia ser admitida publicamente, certo?). Tudo o que conectasse ou se ligasse à força natural das mulheres começou a ser proibido ou visto como maldito, como se nelas residisse a causa do enlouquecimento dos homens.

Screenshot_20191029-114717_Google

Assim, qualquer instância de poder das mulheres, fossem líderes, curandeiras, prodígios ou simplesmente talentosas passou a fazer com que fossem vistas como bruxas, sereias, harpias, banshees ou mesmo Pandoras… Elas tinham o poder de libertar a caixa de todas as mazelas do mundo. Um ônus ou um peso grande demais para qualquer ser vivo, que foi suportado pelas mulheres por tempo demais.

Sob os olhos da própria lei de qualquer credo ou organização social, muitas formas de desejo passaram a ser punidas até mesmo com a morte… ou com a loucura. Já houve até designações clínicas para a perturbação psicológica causada pela vontade ou a privação sexual, como a histeria (na época, doença apregoada exclusivamente às mulheres, porque os homens não corriam o risco de serem considerados histéricos).

Screenshot_20191029-114628_Google

Esse contexto já foi refletido e exprimido de diversas formas, inclusive por expressões culturais como o gênero do terror — seja na poesia, literatura, teatro ou cinema… Como esta última vertente é a que se aproxima mais deste que vos escreve, vamos permanecer na linha da análise semiótica da sétima arte.

Há vários subgêneros do terror que lidam com o desejo e as consequências de sua proibição no audiovisual. Por exemplo, quem tem relações sexuais durante a narrativa e deixa de ser virgem se torna em geral o alvo favorito de psicopatas na categoria de “slasher movies”, filmes de assassinos seriais que matam geralmente com armas brancas, cortando suas vítimas como a representação de um falo ou um dildo. Os casais mais inconsequentes, libidinosos ou impelidos por seus hormônios costumam ser os primeiros a morrer.  Eles não têm sequer tempo de ficar com medo, porque realizam o seu desejo, concretizam suas paixões e pagam por isso. São consumidos no próprio ardor — muitas vezes, inclusive, seus corpos são atravessados pelas lâminas cortantes no próprio ato consumado. Não há tempo de correr, fugir ou se esconder para sobreviver até pelo menos a metade do filme. Em filmes de “possessão”, o ato sexual geralmente é tido como algo do demônio, e o gozo é a comunicação máxima com Satanás. E na categoria de assombrações, a imagem de antigos amantes vaga para sempre pelos quartos em geral em torno das camas ao dormir, pois não há mais a carne para experimentar o prazer, então precisam assombrar aqueles que permanecem encarnados.

Enquanto isso, aqueles que adiam ao máximo a consumação de seus desejos (não apenas o sexual, porém qualquer prazer, fome ou anseio) e explicitam isto de forma masoquista na protelação de sua excitação (para os espectadores, inclusive) costumam ser confrontados com o reflexo de seu lado mais obscuro e erótico. – Leia-se, não é pornográfico, pois pornografia é a explicitação do desejo consumado. Já o erotismo o sublima, posterga o clímax e brinca com a negação do desejo como um meio para o próprio prazer. É uma tortura através da ansiedade. Como se fossem preliminares eternas, e você temesse jamais conseguir culminar no grand finale. É como se a ponta dos dedos esfregasse de leve sobre o tecido de seda pura e jamais pudesse chegar na pele da outra pessoa; ou como se você pudesse ver, mas não tocar… Tocar, mas não pegar… Pegar, mas não explicitar… Ver, mas não enxergar… Bater asas, mas não voar. Porque no momento em que você possa se satisfazer, o desejo morre e recomeça tudo de novo.

Screenshot_20191029-113407_Google

Por isso algumas culturas chamam o gozo de “a pequena morte”, uma vez que o ato consumado vira dejeto, excremento, suor, fluidos, descarte… E não há nada mais aterrorizante que um desejo frustrado, do que o círculo do desejo concretizado que morre e ressuscita, apenas para morrer de novo. Sua sina é acabar e recomeçar, como um “Prometeu acorrentado” da mitologia grega. Estamos falando de um pavor extremo em levantar a hipótese se o ciclo um dia vai culminar em algo ou se nunca levará a nada e jamais irá alçar vôo. Por isso o medo também é erótico.

Screenshot_20191029-113440_Google

E se um filme de terror traz todos estes elementos, desde corpos nus, masturbação, fricção, anseios de um corpo por outro, o que é ainda mais amplificado na solidão e no isolamento, então estamos falando de puro erotismo, tanto quanto se falássemos de elementos da natureza representativos deste corpo isolado, como vento e chuva, água e pedra, luz e sombras, realidade e sonho, ilha e farol… Se um filme chega a enunciar isso, e pronunciar a maldição da loucura, o silêncio ensurdecedor, então ele assume e abraça todas estas contradições anti-pornográficas, opostas à explicitação do clímax, em nome da protelação masoquista do medo.

Screenshot_20191029-113320_Google

Mas a qual corpo se interliga a idealização no isolamento do desejo? Ao se associar historicamente o anseio sexual ao corpo da mulher, retornamos ao interdito proibitório moral que condenava o objeto desejado e não o sujeito que deseja, como se falássemos eternamente das sereias, das harpias, das Pandoras e das bruxas de Salém: termos indissociáveis à caçada insana às mulheres. Estamos inevitavelmente associando um tipo de proibição do sexo fora do intuito religioso de procriação a todo um universo de simbologias profanas e hereges de modo nada sutil nem insuspeito. O desejo à mulher fora dos preceitos normativos religiosos se tornou sinônimo de proibição, e, portanto, o desejo da própria mulher com isso também se torna maldito, assumindo-se esta figura como bruxas que detém um poder paranormal e inexplicavelmente temido caso exerçam o seu desejo livremente. Um mistério sem solução ou resposta.

Screenshot_20191029-114600_Google

Aos homens seria relegado o destino da própria loucura, que é uma das razões que desencadeia tal perseguição para começo de conversa. E a linguagem taciturna e lacônica masculina se torna a expressão fria e solitária da insanidade auto-imposta pela proibição do desejo, que se torna não saudável para o corpo humano. A única opção de escape se torna o erotismo do medo como sublimação no cinema do que não se pode viver na vida fora da ficção. O tempo se torna uma ilusão, um looping da negação do desejo que protela os tentáculos da morte… E que se torna um alívio, um meio para evitar o horror de enlouquecer.

A negação do desejo e da mulher é tanta que só resta à loucura um reflexo homoerótico, que ao mesmo tempo é antropofágico e homofóbico, pois engole a si mesmo e nega o outro como reflexo de si. A negação do duplo se torna a negação do eu. O que demonstra o quão débil e frágil se torna aquele que foi outorgado como sujeito de desejos na história da humanidade patriarcal, o capitão de seu navio, de seu próprio farol na escuridão; uma vítima objetificada de seu próprio medo de gozar.

Screenshot_20191029-114614_Google

É insano ficar trancado dentro de si mesmo e jamais poder sequer desejar outrem. É aterrorizante negar a pulsão sexual de um desejo encerrado em si mesmo sem poder compartilhá-lo. As sombras se tornam a negação do desejo, o escondido, o oculto, o erótico, a postergação da vida, e a luz se torna o clímax, a realização e o encontro com a morte. Uma reflexão de deixar Edgar Allan Poe e seus corvos ou Tarkovski e seu Solaris orgulhosos.

PS: Dedico a reflexão desse texto às incríveis Samantha Brasil (Delirium Nerd, A Lente Escarlate e Cineclube Delas), Michelle Henriques (Necronomiconversa, Cine Varda e #leiamulheres) e Emanuela Siqueira (Cine Varda e #leiamulheres)

74300752_540497019856697_1951353326478032896_n 74919758_403562397006848_596664823924654080_n

*This is a poetic text and a semiotic analysis of the horror genre, viewed from the perspective of the relationship between desire and fear through Robert Eggers’ The Lighthouse. The film features Robert Pattison and Willem Dafoe in a cast that is almost intimate in form only by the two of them (with the exception of flashbacks and delusions), and is produced by the great Brazilian producer Rodrigo Teixeira and RT Features. Rodrigo has also produced other international films such as “The Witch”, also directed by Robert Eggers, and “Call Me By Your Name” by Luca Guadagnino, as well as other examples of horror, such as the prodigious Brazilian filmmaker Gabriela Amaral Almeida from works like “The Cordial Animal” and “The Shadow of the Father”. Now, check out the text below:

“The Eroticism of Fear”

Why do people fear their desires? Why is there a natural inhibition for us not to fulfill our desire in public, and sometimes there are moral prohibitions even for our most private situations that we allow ourselves to impose on ourselves? For a long time, mainly through religion and art, History has blamed women’s bodies for this desire, almost never holding the male body equally responsible. As if man’s desire were an autonomous and involuntary entity, an unstoppable animal impulse devoid of any responsibility in patriarchal society.

And long before we have historically named other LGBTQ or non-binary desires, a woman’s body has long not been regarded as an agent of subjectivities, just an object triggering adverse reactions in men, where women’s nudity in religion and art was or sacred and virginal or almost a product or goods for the male will – never the woman herself.

Loneliness, boredom and idleness were man’s villains, as they were enough to justify their losing control of themselves and attacking women (they attacked other men as well, but this hypocrisy could never be publicly admitted, right?). Everything that connected with the natural force of women began to be banned or seen as cursed, as if they were the cause of men’s madness.

So any instance of women’s power, whether they were leaders, healers, prodigies, or simply talented, came to be seen as witches, mermaids, harpies, banshees, or even Pandoras … They had the power to unleash the box of all ills of the world. A burden too great for any living being that has been carried by women for too long.

Under the eyes of the very law of any creed or social organization, many forms of desire have been punished even with death … or madness. There have even been clinical designations for psychological distress caused by will or sexual deprivation, such as hysteria (at the time, a disease touted exclusively to women because men were not at risk of being considered hysterical).

This context has already been reflected and expressed in many ways, including by cultural expressions such as the genre of terror – whether in poetry, literature, theater or cinema … As this last strand comes closest to the one that writes you now, let’s remain in line with the semiotic analysis of the seventh art.

There are several subgenres of terror that deal with the desire and consequences of its prohibition on audiovisual. For example, those who have sex during the narrative and cease to be a virgin often become the favorite target of psychopaths in the category of slasher movies, serial killer movies that usually kill with sorts of blades, cutting off their victims as the depiction of a phallus or a dildo. The most inconsequential couples, libidinous or driven by their hormones are often the first to die. They do not even have time to be afraid, because they fulfill their desire, fulfill their passions and pay for it. They are consumed in their own fire – often, even, their bodies are pierced by the cutting blades in the act itself. No time to run or hide to survive until at least half of the movie. In “possession” movies, the sexual act is generally regarded as something of the devil, and jouissance is the ultimate communication with Satan. And in the category of haunts, the image of former lovers wanders forever around the rooms usually around the beds at bedtime, as there is no more flesh to experience pleasure, so they need to haunt those who remain incarnate.

Meanwhile, those who postpone the fulfillment of their desires (not just sexual, but any pleasure, hunger, or longing) to the full and masochistically explicit this in delaying their arousal (even bystanders) are often confronted with reflection of its darkest and most erotic side. – Attention, now, because it is not pornographic, because pornography is the explicitation of the consummate desire. Eroticism sublimates it, postpones its climax, and plays with the negation of desire as a means to pleasure itself. It is torture through anxiety. As if they were eternal foreplay, and you feared you could never make it to the grand finale. It is as if the fingertips rub lightly on the pure silk fabric and could never reach the other person’s skin; or as if you could see but not touch … could touch but not catch … could catch but do not spell out … could watch but do not see anything at all … flap wings but do not fly. Because the moment you can be satisfied, the desire dies and it starts all over again.

That’s why some cultures call jouissance “the little death,” since the consummate act becomes manure, excrement, sweat, fluids, discard … And there is nothing more terrifying than a frustrated desire, than the circle of desire realized that dies and rises, only to die again. His fate is to end and restart, like a chained Prometheus of Greek mythology. We are talking about the extreme dread of hypothesizing whether the cycle will ever culminate in something or if it will ever lead to anything and never take off. That is why fear is also erotic.

And if a horror movie brings all these elements, from naked bodies, masturbation, friction, body longing, which is further amplified in loneliness and isolation, then we are talking about pure eroticism, as if we were talking about representative nature elements of this isolated body, such as wind and rain, water and stone, light and shadow, reality and dream, island and lighthouse … If a film ever utters this, and utter the curse of madness, the deafening silence, so he assumes and embraces all of these anti-pornographic contradictions, opposed to the climax explicit, in the name of masochistic deferral of fear.

But to which body is idealization intertwined in the isolation of desire? By historically associating sexual yearning with a woman’s body, we return to the moral prohibition that condemned the desired object and not the desired subject, as if we were talking eternally about the mermaids, harpies, Pandoras, and witches of Salem: terms inseparable from insane hunt for women. We are inevitably associating a kind of prohibition of sex outside the religious intent of procreation to a whole universe of unholy symbolic profanities and heretics. The desire for women outside the normative religious precepts has become synonymous with prohibition, and therefore the desire of women themselves becomes cursed, assuming this figure to be witches who have paranormal power and inexplicably feared if they exercise their power freely. A mystery without solution or answer.

Men would be relegated to the fate of their own madness, which is one of the reasons that triggers such persecution in the first place. And male taciturn and laconic language becomes the cold and lonely expression of self-imposed insanity by the prohibition of desire, which becomes unhealthy for the human body. The only escape option becomes the eroticism of fear as a sublimation in the cinema of what one cannot live in life outside of fiction. Time becomes an illusion, a looping of the denial of desire that stalls the tentacles of death … And that becomes a relief, a means to avoid the horror of going mad.

The negation of desire and woman is so great that only madness remains a homoerotic reflex, which at the same time is anthropophagic and homophobic, because it swallows itself and denies the other as a reflection of itself. The negation of the double becomes the negation of the self. Which demonstrates how weak and fragile one who has been bestowed as a subject of desires in the history of patriarchal humanity, the captain of his ship, of his own beacon in the darkness; an objectified victim of his own fear of cum.

It is insane to be locked inside yourself and never even want to desire another. It is terrifying to deny the sexual drive of a self-contained desire without being able to share it. The shadows become the negation of desire, the hidden, the erotic, the postponement of life, and the light becomes the climax, the realization, and the encounter with death. A reflection of making Edgar Allan Poe and his crows or Tarkovski and his Solaris very proud.

PS: I dedicate the reflection of this text to the amazing Samantha Brazil (#DeliriumNerd, #ALenteEscarlate and #CineclubeDelas), Michelle Henriques (#Necronomiconversa, #CineVarda and #leiamulheres) and Emanuela Siqueira (#CineVarda and #leiamulheres)