O Filme da Minha Vida

Integração estético-catártica com a filmografia da América Latina, resgatando as descendências europeias em comum

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11 de agosto de 2017

É bastante revelador seguir a carreira de um cineasta em franca evolução, filme por filme, ainda mais quando este já é um ator de sucesso com ampla visibilidade. A expectativa a ser correspondida se torna bastante alta. Ainda mais com todas as dificuldades de se fazer cinema no Brasil, de fundos setoriais para financiamento do projeto aos dilemas de distribuição e exibição no circuito desleal, disputando com cinema americano de milhões de dólares em marketing. Mas se há um exemplo que anda usando bem a máxima ‘grandes poderes trazem grandes responsabilidades’ é o ator Selton Mello, que sabe a força de sua fama para centralizar as potencialidades do mercado em favor da arte.

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Depois de uma ótima estreia em 2008 como diretor de um longa-metragem com “Feliz Natal”, e de se tornar o selecionado pelo Brasil na disputa ao Oscar 2013 de melhor filme em língua estrangeira com “O Palhaço”, todo o foco se voltaria para a escolha do projeto a continuar esta trilha evolutiva de sucesso. Quando foi anunciado que adaptaria o romance lúdico “Um Pai de Cinema” de Antonio Skármeta, que se passa originalmente na serra chilena e fala através do amor pela sétima arte sobre um jovem com saudades do pai que sumiu logo numa fase de formação, haveria de se cogitar por que e como Selton extrairia a relevância e pertinência necessárias para nossas terras brasileiras. Especialmente por se tratar de uma história de época, cujo período diferiu bastante nos dois países referidos acima. E se contarmos com as turbulências que estamos passando atualmente, especialmente ante a costumeira consciência política que o ator demonstra em sua vida pública, é importante questionar como este retorno ao passado poderia metaforizar e ressoar significâncias à luz do presente momento.

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Curiosamente, vale fazer um breve interlúdio aqui para uma citação do próprio Selton durante o lançamento de seu primeiro longa, “Feliz Natal”, em entrevista para a Revista do Cinema, onde ele disse: “este não é o filme da minha vida, é apenas o meu filme de estreia”. E agora, quando decidiu nomear sua nova obra justamente com a importante alcunha de “O Filme da Minha”, Selton abriu possibilidade para três interpretações metalinguísticas que vêm a calhar muito bem com a proposta em questão. A primeira seria de que este é um filme sobre a vida de alguém. A segunda seria sobre quais seriam os ‘filmes da vida’ deste alguém dentro do filme, seja por excelência do critério de gosto de cada um, ou por tangência circunstancial, independente do julgamento de conteúdo, pelos filmes que tocaram temporalmente partes da vida da pessoa. Já a terceira vertente seria no extracampo da realidade, fora do filme, e se este poderia ou não ser o filme da vida do espectador.

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Para analisar tamanha meta, vale começar pelo fato de que este filme bebe muito da fonte de um dos clássicos italianos mais amados, “Cinema Paradiso” de Giuseppe Tornatore, até porque o autor do livro “Um Pai de Cinema”, Antonio Skármeta, mesmo sendo chileno, já teve uma de suas obras adaptada para o cinema italiano de forma idílica com o mesmo ator principal, Philippe Noiret: “O Carteiro e o Poeta” de Michael Radford. No intuito de comunicar esta linguagem mediterrânea em terras estrangeiras, a melhor escolha decerto foi situar a história de “O Filme da Minha Vida” no Rio Grande do Sul, que também possui raízes fincadas na imigração italiana. É assim que pavimenta uma das mais belas reconstituições de época, dos figurinos à direção de arte (de Kika Lopes, Monica Delfino e René Padilha, respectivamente), porém não apenas a troco da beleza per si, e sim por motivos simbólicos enriquecedores.

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Há um ar de inocência muito forte na atmosfera, principalmente na primeira terça parte da projeção, que pode até ser ligeiramente estranhada por parte da plateia, somente se tornando crível pela materialização onírica da arte, palpável onde o próprio ar transmite gosto e cheiro de sonhos. Das janelas abertas entre cortinas esvoaçantes a guarda-roupas amadeirados que exalam cores no estilo retrô, saindo do armário praticamente andando sozinhas. Isto é importantíssimo para mergulharmos na composição de uma bolha onde apenas ali tal pureza é capaz de existir. Talvez os espectadores imersos em tempos corruptos estranhem o grau da ingenuidade inicial, quase fantasiosa, mas esta parece ser a intenção e declaração de Selton: o choque do contraste. Começa a transparecer os porquês da importância deste livro adaptado para os cinemas justo neste período histórico.

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A próxima peça do quebra-cabeça é a figura paterna, na figura do ator internacional Vincent Cassel, que transmite sua nacionalidade francesa para o personagem. Onipotente em toda a trama, mesmo quando ausente, a história conta que ele se casa com uma brasileira e forma família nas serras idílicas do Rio Grande do Sul, até partir de súbito, alegando saudades da terra natal. Em parte, a trilha sonora é a responsável por mantê-lo como tema recorrente, uma vez que inúmeras canções francesas clássicas se mesclam às brasileiras e outras, com admirável ecletismo musical. De Claude François e Charles Arznavour ao nosso cancioneiro cult Sérgio Reis, perpassando até por Nina Simone.

Como a narrativa segue o ponto de vista da figura do filho Tony Terranova (Johnny Massaro), não à toa incorporando o rito de passagem até no sobrenome, ficamos divididos entre duas maturidades emocionais, o antes e o depois da partida do pai. É assim que a figura paterna substitutiva começa a ser representada de forma transitória pelo personagem Paco, o melhor amigo da família, interpretado pelo próprio Selton Mello. Ao mesmo tempo em que o ator/diretor constrói uma figura intrigante, meio bronca e rústica,  simultaneamente utiliza-se dela, tal qual uma peça de xadrez, para mudar as jogadas no tabuleiro. Começa sendo um ligeiro alívio cômico através da ironia, todavia ganha complexidade mesmo quando se assume a parte mais “Cinema Paradiso” da história através dele, quando os filmes dentro do filme passam a ser personagens.

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Todos os elementos narrativos mais intrigantes começam daí, como o prostíbulo da cidade vizinha, que poderia até ser mais utilizado, graças ao rendimento garantido pela excelente personagem encarnada pela atriz Martha Nowill (premiada pelo roteiro de “Vermelho Russo”, que também protagoniza), roubando a cena nas poucas vezes em que aparece. Isto dará um pouco mais de bem-vinda malícia calejada ao desenvolvimento da divisão em duas cidades ligadas pelo trem que costura o triângulo amoroso que irá se formar, aliás, mais de um. Mas é no casal principal que se estabelece a principal química, não à toa defendidos pela dupla composta por Massaro e Bruna Linzmeyer, experientes em trabalhar juntos em várias experiências pregressas (como a novela “Meu Pedacinho de Chão” e o filme “A Frente Fria que a Chuva Traz” de Neville D’Almeida). Os olhos ampliados do casal, sempre em super close de suas faces e pele, aproximam a pupila da credibilidade na inocência que se deseja passar, manipulando a máxima do cinema de que “a mentira é sempre mais interessante do que a verdade” (Federico Fellini)… e quem disse que não há verdade na mentira?

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Pois é a confabulação lírica de cenas e enquadramentos que quase alude à paginação de um conto de fadas agridoce. E isto se deve em muito à combinação da trilha instrumental épica e da fotografia predominantemente em ocre envelhecido como uma boa bebida nas mãos de Walter Carvalho. O maturado e intuitivo fotógrafo que estamos acostumados a ver experimentando sempre novas coisas, desta vez fita que adotará a cartilha clássica apenas para subverter o tradicional, e contrastar as distâncias de câmera bem como de memórias em jogo no filme. Há algumas cenas que possuem ângulos primorosos ou jogos de luzes de cair o queixo, como os movimentos que atravessam de dentro para a vastidão bucólica fora da casa, ou na cena da tempestade de raios refletindo na janela.

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Isto agregado à seleção de cores da direção de arte e cenários quase nos faz visualizar um filme francês de Jean-Pierre Jeunet, mas ainda assim havendo uma inegável latinidade na circulação sanguínea do filme que o integra a outros trabalhos com temáticas de época feitos na América Latina, como a estética-catártica de “Machuca” de Andrés Wood, “A Menina Santa” de Lucrecia Martel ou “A Ideia de Um Lago” de Milagros Mumenthaler. E talvez este seja um dos maiores e sutis trunfos de “O Filme da Minha Vida”, conseguindo pelas raízes do continente europeu de nossa colonização, em comum com os Hermanos de mesmo pai maior, aproximar a filmografia latina de uma forma que poucos outros filmes brasileiros tentaram ou conseguiram. Não com uma conformidade a qualquer movimento de linguagem, porém como parentes próximos como de fato somos e nos fortalecemos se inseridos conjuntamente no mercado cinematográfico mundial. Uma boa crônica sobre o paternalismo excessivo de nossas ascendências europeias, inclusive numa crise política de origem patriarcal que sufoca os filhos de uma nação, lutando por uma nova identidade como o protagonista de Johnny Massaro… Mais um ponto para o filme de Selton que deve receber uma boa acolhida no exterior, e talvez até ser o candidato natural do Brasil à seleção pelo Oscar 2018 de filme em língua estrangeira.