O Formidável

Contaminação estética através dos mecanismos de linguagem

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07 de outubro de 2017

Em O Artista (2011), Michel Hazanavicius fez uso de elementos da linguagem dos filmes silenciosos para narrar um momento da história do cinema (aquele da introdução do som) e reproduzir, na contemporaneidade, a experiência de se ver um filme com tais características. O Artista foi fotografado em preto e branco, com razão de aspecto 1.33:1 e os atores têm quase todos seus diálogos substituídos por cartelas, já que, na maior parte do tempo, suas vozes, bem como os sons diegéticos, não são ouvidas. No entanto, Hazanavicius não chega a utilizar o frame rating menor, típico do cinema silencioso, mantendo os posteriormente estabelecidos 24 quadros por segundo, evitando, assim, um efeito de estranhamento maior no olhar do público de hoje, habituado a um determinado ritmo na sucessão das imagens.

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O diretor realiza procedimento semelhante em O Formidável, cinebiografia com recorte bem específico do icônico líder da Nouvelle Vague Jean-Luc Godard (interpretado por Louis Garrel). Há aqui uma filtragem da linguagem vanguardista desse movimento: Hazanavicius se apropria de características do cinema sessentista de Godard, como a ironia metalinguística, a inserção de cartelas com comentários políticos ou citações, a quebra recorrente da quarta parede e mesmo alguns enquadramentos e iluminação de filmes como Pierrot le Fou (1964) e, principalmente, A Chinesa (1967); mas dilui tais elementos num formato um pouco mais palatável, esteticamente menos radical. Produz-se, então, um efeito de emulação pós-moderna, baseada no afeto e na nostalgia pelas imagens do passado do cinema.

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O que pode ser tomado como simplificação boba de procedimentos fílmicos revolucionários tem, na verdade, dois méritos consideráveis: a promoção de um contato inicial do público contemporâneo com determinado movimento cinematográfico por meio não meramente da narrativa convencional dos fatos, mas de uma contaminação estética através dos mecanismos de linguagem desse movimento; a extrapolação de um formato de cinebiografia de grandes nomes da arte que costuma ser, novamente, bastante convencional, mesmo quando o biografado prima pelo arrojo em seu meio de atuação. Vale, nesse sentido, comparar O Formidável com um filme como Chaplin (1992), de Richard Attenborough, que transforma a vida de um dos mais geniais artistas do cinema numa espécie de verbete da Wikipédia ilustrado com imagens em movimento, no qual cada acontecimento da trajetória de Charles Chaplin é apresentado rápida e superficialmente, só mesmo para constar.

Narrado sob o ponto de vista de Anne Wiazemsky (Stacy Martin), esposa de Godard entre 1967 e 1979 e atriz de A Chinesa, O Formidável apresenta o cineasta franco-suíço como um artista inseguro, arrogante e politicamente imaturo, além de um marido controlador e abusivo. Não raramente, figuras tidas como geniais aparecem nos filmes como babacas na intimidade (e, muitas vezes, elas de fato o são), mas aqui parece haver um interesse em usar as fragilidades do biografado para atacar sua obra, especificamente aquela produzida no pós-1968, tida por muitos como aborrecida, excessivamente politizada e hermética. Escolha que até é compreensível, vindo de alguém como Hazanavicius, diretor frequentemente preocupado com a comunicação com o público, mas que não deixa de soar um pouco desonesto: é como se, incapaz de analisar esteticamente os rumos do cinema de Godard, ele simplesmente partisse para o caminho explicativo mais fácil, o da crítica pessoal.