O Gambito da Rainha

Sobre peões e sacrifícios

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15 de dezembro de 2020

“O Gambito da Rainha” fala de sacrifício. Como bem aponta o significado do termo “gambito” no xadrez: o sacrifício de um peão. Quantos peões Beth Harmon não sacrifica ao longo de sua jornada? Quantos desejos e lembranças Beth não abre mão? Sacrificar o próprio vício, talvez, tenha sido sua maior jogada.

Por que essa minissérie fez e faz esse sucesso estrondoso? Uma série sobre xadrez, ora. Se ainda fosse futebol… well, mas é xadrez. Uma série que transcorre sem grandes impactos (seria descortesia de minha parte não afirmar os impactos que os olhares de Anya Taylor-Joy causam).

Afora detalhes óbvios como as atuações, figurino, fotografia e a maneira cativante com que Beth Harmon nos ganha, por que esse sucesso? A resposta: sacrifício.

Nós, espectadores, temos sacrificado muitos peões nesses tempos difíceis. Ou como diriam, “matando um leão por dia”. E matamos os leões mais ferozes: os que rugem dentro de nós. Que fazem o peito vibrar. Nos identificamos com Beth em seus desafios. Beth é movida pela intuição. Estamos em um ano cujos planos mais desaguam do que vingam. Não há muito em que se escorar: a ideia é se manter atento e forte e criativo. Beth é avessa ao óbvio ululante. E também nós estamos cansados dessa previsibilidade nebulosa.

Sacrificamos tanto até aqui… quantos gambitos teremos de fazer, afinal?
Assistam à melhor minissérie do ano. Não será sacrifício, juro.