O Homem Invisível

O Homem Invisível e o excelente uso do cinema de gênero

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13 de março de 2020

Alerta: Este texto pode conter spoilers sobre a trama.

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Uma das produções mais esperadas de 2020, O Homem Invisível estreou com números de bilheteria expressivos e deu continuidade à excelente fase que o terror vem atravessando nos últimos anos. Diretores como Jordan Peele, Mike Flanagan, Ari Aster e Jennifer Kent vem contribuindo para a crescente notoriedade do gênero com títulos como Corra!, The Haunting of Hill House, Midsommar e O Babadook, respectivamente. O australiano Leigh Whannell passa a integrar o time com a bem executada adaptação do clássico de 1933, ambos baseados na obra homônima do autor H. G. Wells, publicada em 1897.

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A versão escrita e dirigida por Whannell traz a trama de O Homem Invisível para os dias atuais e, apesar do título, conta a história do ponto de vista feminino através da personagem Cecilia Kass, interpretada pela brilhante Elisabeth Moss. Noiva da personagem de Oliver Jackson-Cohen, o cientista/homem invisível Adrian Griffin, Cecilia expõe ao espectador seu trauma e sofrimento ao tentar fugir de um relacionamento abusivo, com um homem que todos julgam ser um exemplo de sucesso e caráter. Com um elenco pequeno (apenas seis atores no núcleo principal), a grande carga dramática da produção fica com Elisabeth Moss. A atriz entrega uma excelente intepretação e lida com uma atmosfera familiar, similar a de seu trabalho na série The Handmaid’s Tale – que em sua próxima temporada terá um episódio dirigido por Moss.

O arco da personagem principal mostra consequências e traumas de um relacionamento abusivo em todas as suas fases, com o roteiro fazendo uso do cinema de gênero – terror – e da ficção cientifica para construir em tela uma situação infelizmente recorrente para diversas mulheres. É perceptível a perversa dinâmica do abuso, desde a dúvida dos que estão no entorno da vítima, até o questionamento dela mesma acerca do motivo para que isto lhe aconteça. A escolha de um ator jovem e de boa aparência para interpretar Griffin foi inteligente, pois desconstrói a imagem do abusador, deixando claro que a violência pode vir de pessoas com qualquer idade, instrução, raça ou classe social.

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A ausência de demonstrações gráficas do abuso merece ser salientada; o expectador possui uma clara ideia do que aconteceu, mas o diretor não usou de detalhes ou explorou o sofrimento feminino em tela para desenvolver o enredo. Tal escolha enriqueceu o filme, mostrando uma sensibilidade nem sempre vista no cinema, principalmente quando homens estão à frente de produções com esta temática. Também não há exploração ou objetificação do nu feminino em cena, evidenciando o cuidado de Whannell ao trabalhar com um assunto tão sensível, e que ele como homem não tem vivência. O bom resultado em tela deve-se a algo dito pelo diretor em entrevista: as interferências feitas por Elisabeth Moss no roteiro e como isto contribuiu positivamente e foi essencial no produto final. Infelizmente, o nome da atriz injustamente não foi creditado como colaboradora criativa.

É comum que o terror seja desprezado ou subestimado por muitos, mas a verdade é que o gênero é uma ferramenta de enorme importância para que questões sérias sejam abordadas e consigam atingir o público em uma escala mais ampla. Jordan Peele vem executando este trabalho muito bem em suas obras, e o mesmo acontece em O Homem Invisível. O feminicídio é um dos crimes de maior ocorrência no Brasil e mata uma mulher a cada sete horas no país. Para que um número cada vez maior de pessoas possa sentir segurança em procurar ajuda, denunciar ou até mesmo reconhecer uma situação ao se deparar nela, falar sobre o assunto se faz necessário. O cinema possui um papel social e educador, sendo necessário compreender as camadas mais profundas abordadas em um filme e sua importância, antes de o rejeitarmos com um simples “não gosto de terror”.

Recentemente vimos o filme brasileiro Bacurau, dos cineastas Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, ganhar uma enorme repercussão por usar o realismo fantástico e a distopia para tratar de forma aparentemente lúdica questões que estampam os jornais do país diariamente – abuso de poder, corrupção, negligência com as minorias e preconceito. Este é somente um dos exemplos que podem ser citados, dentro de uma enorme variedade de produções que usam o cinema de gênero com esta finalidade. É preciso que público e as premiações especializadas – como o Oscar – vençam “a barreira” e o preconceito com o terror o quanto antes e reconheçam seu valor, pois o mesmo está em uma ascendente de qualidade e importância que não dá o menor indício de que irá parar.

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