O Imóvel (42ª Mostra de SP)

Neon Noir na 3ª idade

por

31 de outubro de 2018

201814189_1_IMG_FIX_700x700

“O Imóvel” (“The Real Estate” no título internacional e “Toppen av ingenting”) de Axel Petersén é um filme que poderia soar como sendo menor em seu conjunto de fatores, mas cujos detalhes vistos individualmente realmente o fazem crescer. E, como o estilo e uso de linguagem tocam pessoalmente este crítico que vos escreve no tipo de filme que muito interessa ver mais desenvolvido, mesmo com seus deméritos, acaba possuindo um valor artístico maior diante da presente apreciação e campo de pesquisa que pode ser apresentado abaixo.

180314-toppenavingenting-636008-se-gp-1-jpg

O típico thriller psicológico, cuja violência moral vai virando física até o limite do suspense, na linha neon noir de filmes como “Drive”, “Bom Comportamento” e “Você Nunca Esteve Realmente”, entrando na cartilha através de uma trilha sonora eclética e excêntrica que mistura música clássica, eletrônica e sintetizadores, além de luzes de neon misturadas com chiaroscuro. Ainda mais com uma interpretação genial da atriz Léonore Ekstrand aos seus 70 anos de idade numa entrega total, onde usa seu próprio corpo como uma arma letal e torpe com um protagonismo quase vilanesco, para metaforizar os preconceitos sociais suecos a imigrantes e a diferenças de classe advindos de se delinear a propriedade de um prédio e seus contratos fraudulentos de locação com desvio de verba…

toppen-av-ingenting-the-real-estate

Além de ser refrescante e necessário se debater a sexualidade na terceira idade (como filmes que outra brilhante atriz, a chilena Paulina García, costuma selecionar em sua carreira, há de exemplos “Gloria” e “A Noiva do Deserto”). Mas bem como também se é importante debater os desejos de tais personagens fora da zona hegemônica de interesse do cinema (como desejos carnais, materiais e espirituais), as ânsias e medos e, sim, também os preconceitos e velhas tradições que não devem continuar…

the-real-estate-still

Dirigido com eficiência e elementos do estilo neon noir por Axel Petersén, numa pegada de delírio suficiente para justificar a ausência de desenvolvimento de quase todos os personagens, os quais funcionam mais como arquétipos de peças de xadrez num tabuleiro simbólico, este filme pode ser encarado mais como uma montanha-russa de emoções à flor da pele que merecem ser sentidas de forma espontânea.