O Jardim Fantástico

Outros aprendizados com a terra e o espírito

por

25 de janeiro de 2021

4988d1664faf9be7257737ebbc777288_15861359612852_146152780

Apesar de a primeira referência ao se pensar no título do filme “O Jardim Fantástico” de Fabio Baldo e Tico Dias ser talvez o clássico “O Jardim Secreto”, esse bonito curta-metragem de cinema fantástico na verdade não tem nada com a influência européia de imagem ou de pensar. Muito pelo contrário, logo de plano temos uma professora indígena, ouvimos gravações em língua indígena, e as crianças irão aprender outras referências da terra e do espírito que não as colonizadoras que nos vêm de fora.

A primeira noção pré-concebida que vemos justamente de supetão é o uso de Ayahuasca com as crianças. Algo que pode ainda ser um tabu por ignorância da sociedade urbana, que se pensa “moderna”, mas que negligencia outras formas de aprendizado e de evolução. Precisamos alcançar outras instâncias relacionais na comunicação com nosso entorno, com a natureza e com os outros. Talvez não seja tão simples para as expectativas não-indígenas absorver tão facilmente assim, mas o próprio filme não é estranho à pluralidade das crianças e de visões de mundo.

Aos poucos, somos introduzidos, de soslaio ou diretamente, a forças bastante conflituosas a disputar as narrativas deste mundo, como a conversão ao evangelismo, que remete a temos da colonização, ou mesmo as diferenças raciais e de gênero entre as crianças que também indubitavelmente levam a outras formas de aprendizado. Há uma cena de telefone sem fio bastante sutil, mas reveladora, em que vemos a mensagem de um menino preto chegar de forma completamente diversa a uma menina branca.

A montagem realça estes contrastes, mas sempre ancorando centralizada nos planos a professora indígena, de modo a que ela tenha não controle, pois ela própria evoca no texto que não é por controle que ensina, mas sim consciência das perspectivas em seu entorno. A responsabilidade dela não é de posse das crianças nem de imposição de conhecimento, o que leva a mais um contraste, quando a temperatura do filme sai da manhã para a noite e literalmente abraça as estrelas, com o som do sereno se pronunciando (de grilos, vento e árvores), a trocar de lugar com seu aluno – numa excelente dobradinha e química entre os 2 protagonistas (Zahy Guajajara e Luiz Felipe Jesus).

Um interessante filme com bastante a oferecer, especialmente mudar nossos paradigmas de visão de mundo, de base até a fase adulta, e tentarmos olhar com empatia a partir de outros pontos de vista. Vide a própria boa proposta visual, seja a material ou espiritual (com algumas entidades representadas por corpos e figurinos engenhosos na natureza), ou mesmo textual, no roteiro, e até cênica, pois a interpretação é conduzida de forma a integrar a estética e incorporá-la – tanto que a cena final funde a iluminação com o dispositivo narrativo e os créditos finais, mostrando que dá para se fazer um filme diegeticamente consonante a outros paradigmas de conteúdo.

EnWhMHvXcAAW3Fu