O Jornal The Rolling Stone

Dica de peça em cartaz que põe em pauta a questão LGBTQ na África para o novo milênio

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11 de dezembro de 2017

Enfim, um respiro com as obrigações no mundo do cinema para poder assistir esta peça impactante no Teatro Poeira, codirigida por Lázaro Ramos e Kiko Mascarenhas. Como o título já nomeia, “O Jornal The Rolling Stone” versa sobre um tablóide que existiu durante alguns meses de 2010 na Uganda, leste da África, e que realizou uma absurda e trágica caça às bruxas aberta e indiscriminada contra os gays, com apoio da própria população e da religião local. Seguimos os desdobramentos deste absurdo a partir de uma família que se encontra no olho do furacão, e que, apesar do olhar intimista e aparentemente isolado, possui maior envolvimento e consequências no quadro geral do que pensam, inclusive para curar as feridas que eles próprios irão abrir.

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Um texto original de Chris Urch e tradução de Diego Teza, com elenco magistral, dando destaque à firmeza maleável do protagonista Danilo Ferreira em química inesquecível com a apoteótica performance de Indira Nascimento, que interpreta sua irmã (cujo carisma e intensidade lhe dão camadas inacreditáveis), e com a revelação Marcos Guian, a ganhar espaço aos poucos com bastante segurança. Vale ressaltar também as participações mais do que especiais de Heloisa Jorge, no difícil papel de uma controversa mulher bem mais velha do que a idade da atriz, a quem é confiado não cair em caricaturas e manter o fio da navalha na fronteira da moral, para que possamos ter compreensão por todos os lados que ela interliga.

Screenshot_20171210-220922Uma montagem simples na forma que usa desta simplicidade para realçar o texto, mesmo que extenso, e o corpo, trazendo consigo questões de identidade, cultura e autoaceitação mesmo contra todas as imposições do meio. Um palco despojado que (literalmente) centraliza as questões em pauta, enxugando a potencialidade de personagens numa precisão cirúrgica que poucas vezes dá alívio consciente, como nas cenas entre os irmãos mais novos e o casal principal, também pela extrema proximidade que o Teatro Poeira permite da arte com seu público.

Screenshot_20171210-220811Uma peça para não se perder.

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