O Lar das Crianças Peculiares

Tim Burton desperdiça mais uma vez a chance de realizar um filme memorável para sua carreira

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30 de setembro de 2016

Tim Burton é aquele tipo de cineasta do qual sempre esperamos grandes obras. Conhecido por sua excentricidade, seus filmes de estética sombria e bizarra possuem uma clara assinatura do diretor – você sabe quando está assistindo a algo criado por Tim Burton. Mais lembrado pelo que talvez seja sua obra-prima “Edward Mãos de Tesoura”, é visível a sua queda de criatividade e inovação desde “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (2003). O estilo inconfundível permanece em suas criações, por isso sempre há a esperança dos fãs e cinéfilos de que Burton volte à boa forma. Infelizmente, não é o que ocorre em “O Lar das Crianças Peculiares”, seu mais recente longa-metragem, baseado no romance best-seller “O Orfanato da Senhorita Peregrine Para Crianças Peculiares” (Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children), escrito por Ransom Riggs. Ao ler o livro, Burton declarou: “Vocês têm certeza de que não fui eu quem escreveu esse livro? Parece algo que eu teria feito…”. A história realmente parece ter sido escrita pensando no diretor e na possibilidade de ser transformada em filmes através de suas mãos peculiares. Poderia ter sido uma película incrível e memorável, porém o resultado é mais um filme de aventura infantojuvenil, apenas um pouco mais sombrio que o normal.

Na trama, Jake (Asa Butterfield) é um adolescente que acaba de perder o avô, que lhe deixa pistas sobre um mistério que pode resolver a sua estranha morte e apresentá-lo a um universo mágico cujo centro é o Lar Para Crianças Peculiares da Senhorita Peregrine (Eva Green), uma Ymbryne que pode se transformar em ave e criar fendas temporais, paralisando o tempo numa data específica – no caso, 3 de setembro de 1943, dia em que uma bomba nazista explodiu o orfanato na calada da noite em plena II Guerra Mundial. Logo Jake se enturma com os residentes e conhece seus poderes especiais, bem como os temidos e poderosos inimigos: os Etéreos. Liderados por Mr. Barron (personagem de Samuel L. Jackson escrito especialmente para o filme), os Etéreos são monstros invisíveis que se alimentam dos olhos das pessoas peculiares para retornarem à forma humana, e somente Jake consegue enxergá-los, um dom que herdou de seu avô Abe (Terence Stamp) e que fará dele a única pessoa que pode salvar as crianças do lar de serem mortas e terem seus olhos devorados. Jake não poderia imaginar que sua viagem a Cairnholm, no País de Gales, onde a fenda temporal estava escondida, fosse se tornar tão movimentada.

Etéreos são, em sua aparência, uma mistura de Homem Pálido, de “O Labirinto do Fauno”, com Slender Man e toques de Jack Skellington caracterizado de Pumpkin King em “O Estranho Mundo de Jack”, dirigido por Burton. Qualquer semelhança de “Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children“ (no original) com X-Men não é mera coincidência: Jane Goldman, roteirista do longa, co-escreveu os roteiros de “X-Men: Primeira Classe” (2011) e “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” (2014). Também é possível traçar paralelos com as histórias de “O Inventor de Jogos”, de Juan Pablo Buscarini, e a saga “Harry Potter” (o Etéreo Mr. Barron lembra bastante Lord Voldemort em sua essência). Todas essas referências convergem em um mesmo ponto, predominante na filmografia de Burton: a exaltação ao diferente, ao que é considerado estranho pela maioria, e à proteção do mundo exterior pelo sofrimento que a exposição pode causar; e isto diz muito sobre o diretor.

Ainda que o filme revisite a estética de “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” e “Edward Mãos de Tesoura”, principalmente no que se refere à caraterização e figurino dos personagens, e de “Sombras da Noite”, em especial no quesito cenografia, falta muito para ser uma grande obra assinada pelo mestre Burton. A sua nova musa desde “Sombras da Noite” Eva Green se destaca ao interpretar a excêntrica Ymbryne Alma Peregrine de trajes vitorianos, com inspirações no figurino de sua personagem da série “Penny Dreadful”. Ela é o que há de mais próximo ao que o diretor já fez de melhor em sua carreira. Os maiores problemas de “O Lar das Crianças Peculiares” são o mau aproveitamento do elenco, com Judi Dench vivendo uma personagem quase insignificante, a má construção e pouco aprofundamento dos principais personagens: Jake, Senhorita Peregrine e Abe. Os eventos externos de fuga e luta contra os Etéreos acabam se sobrepondo ao que deixaria a trama mais interessante. Por outro lado, as crianças do lar são muito bem apresentadas ao espectador. A narrativa lenta até a segunda parte da projeção e as cenas finais de batalha muito longas e exageradas tornam o filme cansativo, apesar dos ótimos efeitos especiais, característicos das produções de Burton, das boas cenas no fundo do mar e das belas locações. Quem leu o livro de Riggs provavelmente vai se decepcionar bastante com a sua adaptação para o cinema, já que muito da história original foi mudado por Goldman. Se o longa terá continuações baseadas nos outros dois livros da trilogia, ainda não se sabe. Até há um gancho para tal, mas poderia ter sido melhor criado. O fato é que Tim Burton deixou a desejar com esta produção: faltou o surpreendente e uma dose maior de bizarro, além de um roteiro mais bem elaborado, que se preocupasse mais com a qualidade da história e menos com a aplicação dos efeitos especiais e a classificação etária.

 

 

O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children)

EUA – 2016. 127 minutos.

Direção: Tim Burton

Com: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench, Ella Purnell e Terence Stamp.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3