O medo em si

Documentário aborda a manipulação do medo no cinema de terror

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11 de outubro de 2016

O diretor e roteirista Charlie Lyne parece ser fascinado pelo estudo do uso de estereótipos no desenvolvimento de narrativas cinematográficas. Em seu filme mais famoso, “Muito além das patricinhas de Beverly Hills” (2014), o cineasta fazia uma análise competente de como o cinema retrata o adolescente nos chamados teen movies. Em sua nova empreitada, “O medo em si” (2015), o objetivo é investigar a manipulação do medo como elemento primordial na constituição da atmosfera própria dos filmes de terror.

O Medo em Si

O Medo em Si

Lyne se vale, aqui, da mesma linguagem que desenvolveu em seu projeto anterior: uma mistura de storytelling, presente na narrativa em off que impulsiona a obra, com elementos de videoarte, construindo sua identidade visual a partir de colagens de trechos de diversos filmes de horror das mais variadas épocas e países. O objetivo é simples: demonstrar imageticamente a tese que o cineasta constrói a partir da análise dos receios mais comuns que o ser humano é capaz de experimentar, e de como essas emoções são manipuladas nesse tipo de trama.

O Medo em Si

O Medo em Si

A tentativa de buscar uma explicação lógica capaz de justificar o medo irracional que sentimos diante de um filme de terror é válida e, por si só, interessantíssima – principalmente se considerarmos o fato óbvio de que se trata apenas de uma história fictícia, projetada em uma tela, dentro uma sala repleta de pessoas. Por outro lado, é inegável que o diretor possui um vasto conhecimento do gênero, como deixam claro os belíssimos filmes escolhidos para ilustrar a obra. Contudo, apesar de seus méritos, “Fear itself” (no original) é um filme irregular e, em alguns momentos, torna-se mesmo enfadonho. As situações propostas surgem como se fossem apenas um compêndio, um dicionário de terror à disposição para consulta. E, ao fazer isso, o diretor compromete o ritmo da narrativa, dispersando a audiência. Contribui também para esse desinteresse gradativo justamente a narração em off, que havia funcionado tão bem em “Muito além das patricinhas de Beverly Hills”. Monocórdia e chorosa, a voz de Amy E. Watson não consegue dar o tom sombrio pretendido por Lyne, servindo mais como um elemento de distração do que de imersão.

O Medo em Si

O Medo em Si

Encerrado o filme, fica a sensação de que, muito melhor do que entender como os filmes de terror brincam com as nossas emoções, é se divertir com os sustos que uma história bem contada provoca. Essa conclusão, porém, seria igualmente alcançável e válida em um documentário mais bem desenvolvido.

Festival do Rio 2016 – Midnight Docs

O medo em si (Fear itself)

Reino Unido, 2016, 88 minutos

Direção: Charlie Lyne

Com: Amy E. Watson

Avaliação Celso Rodrigues Ferreira Junior

Nota 3