O melhor do Festival de Berlim em 21 grandes filmes

Da versão mafiosa de 'Os incompreendidos' à poderosa estreia de Wagner Moura na direção, confira o que a Berlinale viu de melhor, em estéticas e bandeiras da ética

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19 de fevereiro de 2019

"La Paranza Dei Bambini" rendeu a Claudio Giovannesi o prêmio de melhor roteiro

“La Paranza Dei Bambini” rendeu ao diretor Claudio Giovannesi o prêmio de melhor roteiro

Rodrigo Fonseca
Balanço da Berlinale 2019: eis os favoritos, como todo o respeito para Nadav Lapid, o ganhador do Urso dourado por “Synonymes”, filme sem transcendências emotivas, mas de rigor plástico invejável, na forma de representar as angústias de um jovem israelense desterrado em Paris. Confira os melhores títulos do festival alemão:

1)  La Paranza Dei Bambini (ou Piranhas), de Claudio Giovannesi: Primo de “Gomorra” (2008), o ganhador do Urso prateado de melhor roteiro se alimenta do olhar jornalístico do escritor Roberto Saviano para fazer uma crônica da juventude napolitano em fase de educação pela pedra. Espécie de “Os incompreendidos” meets “Os bons companheiros”, com um pé em Truffaut, outro em Scorsese, este magistral exercício de balanço geracional do romano Claudio Giovannese mapeia a desesperança a partir da saga de um grupo de adolescentes de 15 anos arrastado para as fileiras da máfia pelas vias da pobreza.

2) Skin, de Guy Nattiv: Jamie Bell tem uma atuação desconjuntante no papel de um supremacista branco, tatuado dos pés à cabeça, que, ao se apaixonar por uma mãe solteira (a excepcional Danielle Macdonald), decide largar a célula neonazista onde cresceu e virar um sujeito avesso a intolerâncias raciais. Montagem avessa a clichês.

3)   Greta, de Armando Praça: Numa brincadeira (a sério) de Fassbinder, o diretor cearense, estreante em longas, deu a Marco Nanini a apoteose que o cinema lhe devia há décadas, criando um personagem monumental em sua introspecção. Ele vive Pedro, um enfermeiro gay de 70 anos, casado com a solidão, às voltas com a perda anunciada de uma amiga trans e com a chegada de um possível amor, na pele e osso de um assassino, vivido (com doçura) por Demick Lopes. É a luz mais inspirada que Ivo Lopes Araújo já clicou;

4)      The Golden Glove, de Fatih Akin: Uma espécie de Nosferatu de carne, osso e feiura, Fritz Honka (1935-1998), psicopata que assombrou Hamburgo, de 1970 a 75, matando e esquartejando garotas de programa, ganha uma cinebiografia digna de mestres do terror e do expressionismo das mãos do maior cineasta em atividade na Alemanha, o teuto-turco Fatih Akin (de “Contra a parede”). Jonas Dassler é o favorito ao Urso de Prata de melhor ator por seu desempenho assombroso como Honza.

5)     Grâce à Dieu, de François Ozon: Foi uma alegria ouvir o nome deste filmaço na hora em que Juliette Binoche foi anunciar o Grande Prêmio do Júri de Berlim de 2019: ele une excelência estética e urgência ética. No trabalho mais adulto de sua carreira, o realizador de “Dentro da casa” (2012) e outros sucessos recria um caso real (a ser julgado agora em março) de mobilização pública dos franceses contra um padre pedófilo. O brilho maior vem de seu roteiro, que estraçalha a lógica convencional dos três atos, de modo a cada segmento narrativo dar conta de uma das três vítimas do sacerdote, vividas por Melvil Poupaud, Swann Arlaud e o brilhante Denis Ménochet. 6)      Marighella, de Wagner Moura: Seu Jorge, um poço de carisma, faz do guerrilheiro Carlos Marighella algo mais do que um decalque de uma figura real: faz uma espécie de signo mítico dos heróis da luta armada brasileira. É maior do que só o homem de quem toma o nome emprestado. É um simbolismo vivo de resistência, tema central deste thriller à la Costa-Gavras que surpreende pelo virtuosismo de suas cenas de ação e pelo desempenho luminoso de Bruno Gagliasso na pele do delegado Lúcio. No roteiro, seu acerto está em sua aposta na dialética. Na fotografia, vemos o apogeu de Adrian Teijido.

Seu Jorge esbanja carisma no filme de estreia de Wagner Moura: virtuosismo nas sequências de ação

Seu Jorge esbanja carisma no filme de estreia de Wagner Moura como diretor: virtuosismo nas sequências de ação

7)      Tremores, de Jayro Bustamante: Cura gay é o assunto do realizador de “Ixcanul”, que volta a falar sobre descobertas sexuais e amadurecimento só que de uma perspectiva masculina: Pablo (Juan Pablo Olyslager) é um consultor financeiro que tem sua vida virada do avesso depois que decide se assumir homossexual e morar com o namorado.
8)      Mid90s, de Jonah Hill: O astro de “Superbad – É hoje” (2007), duas vezes indicado ao Oscar de coajudvante (por “O homem que mudou o jogo” e “O lobo de Wall Street) foi estrear na direção recriando a época de sua educação sentimental, a década de 1990. Lá, entre pistas de skates, um rapaz assolado por bullying e solidão busca uma nova forma de se ressocializar. Isso narrado com uma fotografia que aposta na vertigem.

9)      God exists, Her name is Petrynia, de  Teona Strugar Mitevska: Vem da Macedônia o ganhador do prêmio do Júri Ecumênico. Nele, uma historiadora desempregada é alvo de sexismos e conservadorismos ao se apoderar de uma cruz da Igreja Ortodoxa em que só homens poderiam pegar. Igualdade de gêneros e fundamentalismo religioso são seus alvos.

10)   Divino amor, de Gabriel Mascaro: Dira Paes botou Berlim no bolso ao viver uma Joana D’Arc de repartição pública neste trabalho de maturidade do realizador de “Boi Neon”, construído como uma reflexão sobre a fricção do corpo com o Estado. Escriturária em um cartório, Joana (Dira) defende Deus sobre todas as coisas num Brasil futurista, de 2027, onde o carnaval deu lugar a uma rave de Cristo. Mas o Espírito Santo há de aprontar com sua fiel.

11)   Estou me guardando para quando o carnaval chegar, de Marcelo Gomes: Toritama é a capital nacional do jeans, mas é também um lugar onde as pessoas optam por uma autonomia profissional, avessa aos grilhões da mais valia, a fim de se apropriarem do Tempo. Mas, usando um dispositivo digno do diretor Dziga Vertov, em seu “O homem com a câmera” (1929), Gomes faz uma observação (sensorial) do fluxo da vida naquele canteiro de linha azul e agulha em disparada para tentar entender o que torna a temporalidade algo tão inalcançável.

12)   Système K, de Renaud Barret: Na lógica do luxo ao lixo, este .doc sobre formas de resistência estética nas ruas do Congo acompanha as estratégias de um grupo de multiartistas de Kinshasa que utilizam capsulas de bala, sucata de eletrodomésticos e caveiras para fazer instalações das mais provocativas. É um filme sobre o redesenho do espaço urbano.

13)   Querência, de Helvécio Marins Jr.: Com ecos do cinema documental de Humberto Mauro, em especial “Carro de bois” (1974), este experimento poético de observação do cotidiano de um tratador de gado, com sonhos de se firmar como locutor de rodeios, arrebata não apenas por sua potência visual, mas por sua denúncia da negligência das autoridades diante de crimes ligados a questões fundiárias. É um western sem bangue-bangue, num mundo onde a honra reza para Nossa Senhora.

14)    Photograph: Famosa pelos musicais de Bollywood, muito coloridos e cheios de fantasia, a Índia deu um olé na concorrência com produções autorais da Europa e filmes independentes das Américas ao gravitar pelas telas da Berlinale, nos momentos finais do evento germânico, com uma espécie de “Cinderela”, trocando o sapatinho de cristal por um retrato. Com sabor de conto de fadas e temperos de comédia romântica com Julia Roberts, esta produção de Ritesh Batra caiu como bola de sorvete sobre o quentíssimo strudel audiovisual berlinense: foi um sopro de doçura em uma seleção pautada pela política e por filmes combativos. Realizador do sucesso “Lunchbox” (2013), Batra touxe para uma projeção hors-concours uma love story multicultural entre um lambe-lambe, o fotógrafo Rafi (Nawazuddin Siddiqui), que ganha o pão do dia a dia tirando retratos em pontos turísticos, e uma estudante de classe abastada, Miloni (Sanya Malhotra, do fenômeno de público indiano “Dangal”). Interditada por dilemas financeiras, a paixão entre eles, discretíssima, vai sendo desenhada na tela como um ritual etnográfico sobre tradições da Índia. Ela quer evitar um noivado forçado. Ele precisa de uma noiva, para dar satisfação à família. O encontro é perfeito… sobretudo por eles se gostarem de verdade. Mas contratempos financeiros vai dar um gostinho de folhetim a este produto de imediata adesão popular e de inegável apuro dramatúrgico.

"Grâce à Dieu" rendeu a François Ozon o (merecido) Grande Prêmio do Júri

“Grâce à Dieu” rendeu a François Ozon o (merecido) Grande Prêmio do Júri da Berlinale

15)   Hellhole, de Bas Devos: Da pátria dos irmãos Dardenne brota este poderoso ensaio sobre a solidão em uma Bélgica marcada por cicatrizes morais relativas à exclusão. Uma série de personagens – entre eles, um jovem árabe com dilemas políticos, um médico de classe média em crise com as atitudes de seu filho e uma tradutora italiana cheia de conflitos, vivida pela genial Alba Rohrwacher – vão se cruzar numa ciranda afetiva em Bruxelas.

16)   A portuguesa, de Rita Azevedo Gomes: Com uma direção de arte estonteante, este ensaio sobre a potência poética das fragilidades se estrutura a partir das artimanhas de uma mulher da Idade Média que tenta transformar um castelo num lar.
17) Flatland, de Jenna Bass: Uma policial tenta investigar um crime em uma África do Sul que revela fantasmas nunca exorcizados do aparatheid.
18) Stitches, de Miroslav Terzic: A Sérvia brilhou nas telas da Berlinale.69 com um melodrama de uma centelha emotiva incendiária: “Stitches” (“Savovi”, no original), de Miroslav Terzic. O filme transforma em ficção, com uma potência trágica avassaladora, um crime histórico (e recorrente) nos países que um dia constituíram a Iugoslávia: o rapto de bebês, ainda na maternidade, onde as crianças eram dadas como mortas para seus pais e encaminhadas para adoção em territórios ricos do Velho Mundo. A trama de Terzic acompanha a angústia de uma mulher, Ana (Snezana Bogdanovic), que há 20 anos celebra o aniversário do filho que teria morrido ainda no berçário, neném. Só que o Destino bate à porta de Ana com outra versão dos fatos. Estaria o menino – hoje já um adulto – vivo?
19) Light of my life, de Casey Affleck: O astro de “Manchester à beira-mar” (2016) utiliza o que de aprendeu de melhor com os grandes cineastas que o dirigiram (como Steven Soderberh, Kenneth Lonergan e o próprio irmão, Bem) para extrair de seu elenco uma dor à altura do mundo seco que constrói nesta ficção científica distópica. Ele vive um pai que quer salvar a filha dos perigos de um futuro no qual as mulheres da Terra foram dizimadas por uma moléstia misteriosa.

20) Out Stealing Horses: Foi uma escolha precisa conceder o prêmio de Contribuição Artística à fotografia de Rasmus Videbaek. Ela acentua a dimensão paradisíaca de uma instância rural da Noruega onde um viúvo (Stellan Skasrgärd) vai se refugiar do luto, esbarrando com um pesadelo de sua infância.

21) The shadow play, de Lou Ye: O diretor de “Amor e dor” (2011) faz uma reinvenção dos códigos do cinema noir num thriller sobre corrupção, no qual um jovem policial tenta averiguar o que há de errado na morte de um empresário.