O Menino que Brincava de Ser

Esvaziada a discussão sobre gêneros leva a peça a mostrar apenas quadros superficiais sobre o bullying

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31 de outubro de 2015

Utilizando-se de um tema bastante importante para os dias de hoje- apesar de ser uma montagem original de 2007-, a Pandorga Companhia de Teatro, está em cartaz no Teatro Cândido Mendes, aos sábados e domingos às 17h, em Ipanema- Rio de Janeiro- , com a peça “O Menino que brincava de Ser”. Inspirado no livro homônimo de Georgina Martins, conta a história de três crianças durante o ensaio de um espetáculo de teatro que apresentarão no auditório da escola. O texto escolhido é “O menino que brincava de ser”. Dudu é uma criança que gosta de brincar de ser várias personagens femininas – bruxas, mãe ou heroínas – e sofre com piadas na escola, e com a incompreensão de alguns de seus familiares, devido ao seu gosto em querer interpretar personagens de gêneros femininos. Para isso, seus pais, buscam respostas em dois especialistas da área médica. Onde encontram sugestões mais claras, e mais lúcidas, sobre o tema da fantasia, da liberdade e de orientação. Tendo em sua avó materna, que é também atriz, um apoio total em sua opção.

A personagem de Dudu, interpretada por Giuseppe Marin, deixa claro desde o início do espetáculo qual é a sua orientação

A personagem de Dudu, interpretada por Giuseppe Marin, deixa claro desde o início do espetáculo qual é a sua orientação. Esvaziando a discussão sobre gêneros e levando a peça a mostrar apenas quadros sobre bullying. Foto de Reanto Mangolin.

A direção de Cleiton Echeveste, que tem um formato bem simples, e que se aproxima mais de uma contação de histórias, do que de um espetáculo teatral, investe o seu conceito em uma linguagem para crianças bem pequenas e para uma plateia iniciante na prática de assistir a espetáculos de teatro. Onde busca soluções primárias para contar uma história igualmente superficial, e esquemática, sobre a dificuldade em se lidar com os gêneros. Onde atribui ao teatro um papel simplista, onde os gêneros podem conviver em harmonia, e onde podemos ser tudo o que quisermos. Virar menina? Ou ser ator para virar menina? Além da pegada didática em relação ao mundo que compreende o teatro. Tudo é sublinhado, e explicado, como se a criança precisasse de que assim o fosse para que ela pudesse entender. No terço final da peça então, fica uma grande lacuna na dramaturgia. Se é para tocar na ferida, seria muito mais aconselhável que o menino optasse de fato por querer ser uma menina, ainda que isso fosse apenas um desejo infantil impulsivo, e sem grandes convicções adiante. Ainda mais que hoje já é bastante divulgada a enorme quantidade de crianças muito pequenas que já parecem fortemente ter escolhido a sua trajetória de gênero. Desta maneira perde a dramaturgia, a encenação e as artes cênicas, que acabam por indicar o teatro como um local associado a diversos tipos de distúrbios. Pela atuação dada a personagem – interpretado de forma esteriotipada por Giuseppe Marin -, fica clara a inclinação do menino, desde o início, em ter preferências pelo universo feminino, além da amiga – interpretada por Tatiana Henrique, no mesmo formato de Marin -, que é feita também com grande carga de masculinidade. Esse peso é dado pela falta de sutileza da direção em trabalhar com um estereótipo do menino bem feminino e da menina bem masculina. Reforçando o maniqueísmo da sociedade em ler em sua primeira impressão, que um menino mais delicado é necessariamente um menino com tendências ao outro gênero, e vice-versa com o universo da menina. O espetáculo “O Menino que brincava de Ser” fala apenas sobre bullying, no que diz respeito à liberdade de expressão, e passa a léguas sobre a discussão da diversidade e orientação de gênero, esvaziada pela conclusão rasa de que a personagem Dudu não queria ser uma menina, mas sim fazer teatro. Como se o teatro pudesse ser o lugar de sua libertação. Quando na verdade seria mais um lugar para que ele pudesse se esconder, se aprisionar, se mascarar; e não enxergar de frente a qual gênero de fato ele pertence.

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Pelos ensaios vistos, da peça dentro da peça, podemos ver também que nenhum dos alunos parecem estar no caminho certo para se tornarem bons atores na “realidade” da peça. Foto de Renato Mangolin.

Apesar do cuidado da produção da Pandorga, e dos itens que a envolvem, como a iluminação de Tiago Mantovani – que não consegue mostrar todo o seu potencial no espaço do limitado Teatro Cândido Mendes -, e dos figurinos de Daniele Geammal; o espetáculo apresenta uma grande dificuldade no desenvolvimento de seu eixo central, que acredito esteja ligado ao frágil e confuso texto do livro em que a peça foi inspirada, e levando o mesmo apenas para um mundo lúdico e bastante superficial entre os gêneros e a arte.

FICHA TÉCNICA

Espetáculo inspirado no livro homônimo de Georgina Martins

Dramaturgia e Direção Cleiton Echeveste

Elenco: Giuseppe Marin, Leo Campos e Tatiana Henrique

Stand in: Jan Macedo

Figurino Daniele Geammal

Cenário Pandorga Companhia de Teatro

Trilha Sonora Original Gustavo Finkler

Preparação Corporal: Jan Macedo

Iluminação Tiago Mantovani

Montagem de luz: Ricardo Lyra Jr.

Operação de Luz Ricardo Lyra Jr. e Hebert Said

Projeto Gráfico Fernando Nicolau

Assessoria de imprensa Bianca Senna e Paula Catunda

Assistência de produção: Lucimar Ferreira

Produção André Roman e Eduardo Almeida

Realização Pandorga Companhia de Teatro, Pita Produções e AR Produções

 

SERVIÇO

“O MENINO QUE BRINCAVA DE SER”

Teatro Cândido Mendes

Endereço: Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema

Temporada: 03 de outubro a 1º de novembro

Dias e horários: Sábados e domingos, às 17h

Informações: (21) 2523-3663

Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Duração: 55 minutos

Classificação etária: Livre

Recomendação etária: crianças a partir dos 6 anos

Lotação: 102 lugares

 

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 2