O Mistério da Bomba H _

Com uma produção caprichada espetáculo surpreende ao esbarrar na total falta de um conceito teatral definido

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18 de outubro de 2015

O FENATIFS, em sua 8a edição, apresentou crescimento e maturidade. Ao fazer uma curadoria séria e diversificada de sua programação, cercou-se de bons critérios, para a escolha de interessantes espetáculos. Muito apropriadas devido ao equilíbrio entre o ser “bom” e o parecer “muito bom”. Entre a imagem, e a expectativa, criada dos espetáculos, e as suas execuções propriamente ditas. Isso se dá por uma carência grande de espetáculos com boa qualidade em nosso país. Potencializada pela falta de informação técnica na mídia, pelo mercado de festivais com critérios duvidosos em suas escolhas, e o crescente número de comentaristas teatrais, carentes de formação, que se aventuram a escrever opiniões, muitas vezes nada embasadas, sobre peças de teatro. Como se fosse simples assim, ver uma peça, dizer o que acha, usando o seu gosto pessoal e a sua falta de conhecimento, e resultando nestes casos em falsas expectativas entre o que de fato seja a arte, um espetáculo verdadeiramente teatral, um simples entretenimento ou um arremedo de qualquer coisa. Esta reflexão acima, se aplica adequadamente ao espetáculo “O Mistério da Bomba H _______________” do Grupo Oriundo de Teatro de Minas Gerais.

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O figurino é o único ponto alto da peça, junto com os bonecos

O_Misterio_da_Bomba_H__4_,_alta_resol.,_por_Anna_Campos

O cenário da peça serve apenas como banco e nada mais

“O Mistério da Bomba H _______________” é um destes bons exemplos de espetáculos que deixam o público em dúvida sobre qual a impressão deve se ter da peça assistida. Aparentemente, a mesma se apresenta com uma produção caprichada e visualmente impactante. Nos fazendo crer que trata-se de uma peça acima da média. Entretanto, aos poucos, vamos percebendo que existem algumas desconexões, e muitos equívocos em todos os seus setores de atuação. Assim, um choque de realidade, vai nos intrigando e nos conduzindo a alguns importantes pensamentos sobre a peça. Pensamentos necessários estes, pela quantidade também de crianças e adultos que vieram me abordar na porta do teatro, ao final da peça, querendo saber se eu havia gostado ou não da peça, devido a ser unânime o desconforto de todos com o espetáculo apresentado. Todos, que não haviam gostado, e eram centenas, pareciam precisar de uma palavra de conforto. Devo confessar que sim, eu lhes dei esta palavra de conforto, ao assumir também que não havia gostado da peça. Um aval para que eles pudessem se sentir no caminho certo dos seus sentimentos, emoções e pensamentos. E este papel cabe a um crítico, sendo ele de forma indireta no papel, ou ao vivo. O espetáculo apresenta uma quantidade muito grande de equívocos em sua concepção cênica e realização. A começar pelo texto de Antonio Hildebrando , ou por sua má adaptação. A premissa é por demais confusa e mistura elementos sem pé nem cabeça, e dando atenção especial a uma trama fraca de um astro de TV (!?) que chega a Galinópolis e que nada diz de importante sobre isso: em meio à visita de um famoso ator de televisão e a uma ameaça de atentado terrorista, no qual seria utilizada a terrível bomba H___, entram em cena fãs histéricas, super-heróis, autoridades e malandros que, entre disfarces, amores impossíveis e perseguições, representam o embate entre frangos e perus que movimenta Galinópolis e seus habitantes.  Apresentado em seu título e release como uma peça sobre “mistério”, não vemos e nem sentimos nada que se pareça com um texto, ou uma trama de mistério, e muito menos vemos em cena um décimo do que é citado na sinopse: “famoso ator de televisão” (?),  “ameaça de atentado terrorista” (?),  “fãs histéricas” (?), “super-heróis” (?), “autoridades” (?) e “malandros” (?), “amores impossíveis” (?) e “perseguições” (?). Tudo isso escrito em uma dramaturgia fraca e arrastadíssima, temos a certeza de que esta “peça” não se apresentou no 8o FENATIFS. Contribuindo totalmente para isso a fraquíssima direção de Anna Campos, que “estreou” no cargo, nesta peça. Ela não conseguiu criar, em nenhum momento, uma atmosfera de mistério, de suspense, de apresentar esta trama mirabolante, de imprimir nos atores qualquer verdade sobre isso, ou qualquer coisa que o valha! Nada colabora para nada, a cenografia é uma das mais decorativas que eu já vi em um teatro infantil. Grandes, imponentes e sem nenhuma função. Um puleiro onde as galinhas praticamente não sentam, e não se faz uso do mesmo. Uma área que parece uma cozinha ou algo assim, serve apenas também como um banco e nada mais, e por fim uma casa (?), que serve apenas para o uso de um plano alto, de uma manipulação fraca de bonecos de luva, em formas de galinha, e uma janela para nada, além der ter um indefectível escorrega para duas esscorregadas e nada mais. Ou seja, um cenário absolutamente decorativo e totalmente desnecessário. No que diz respeito ao elenco, todos apresentam um atuação tímida de atores, cantores e músicos, como um rascunho, ou esboço de galinhas e perus, e nenhum deles imprime alguma verdade que seja sobre as suas personagens ou sobre a trama apresentada. O que fica do “Prefeito” é apenas uma chata repetição sobre um discurso inacabado, da “mocinha” que teria que se apaixonar pelo “astro” fica apenas a sua voz e canto agradável, dos outros nada se aproveita. Sendo necessário ressaltar a escolha mais do que equivocada do ator que deveria interpretar o “galã”. Ele tem uma participação desastrosa. Não conseguimos ver personagem, atuação, nada que se pareça com um galã, ou com qualquer outra coisa, onde não entendemos as suas escolhas corporais e vocais. Onde não entendemos quase nada do que ele fala ou faz em cena. Os pontos positivos da peça são os simpáticos figurinos e os bonecos da coruja e avestruz. Muitíssimo pouco para considerarmos esta uma peça teatral.

Quero parabenizar também os olhares atentos das plateias de Feira de Santana, que já estão conseguindo distinguir maus espetáculos de bons espetáculos. Um resultado claro dos projetos Domingo tem Teatro e das oito edições do FENATIFS, que mostra a sua verdadeira vocação de formação de plateias e de cidadãos sensíveis.


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