O Monstro no Armário

Bela sintonia de acordes que tocam as diferenças com amor.

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23 de outubro de 2016

Numa escola assumidamente ‘Xavier Dolan’ de fazer cinema, como a própria distribuidora está vendendo o filme, o longa de estreia de Stephen Dunn, “O Monstro no Armário”, tem uma personalidade marcante e tema atual para garantir seu público. Debatendo sobre a educação que é dada em casa, divórcio e predomínio de um pai machista e opressor, o longa fala sobre a dificuldade do filho se assumir gay. Sim, ainda nos dias de hoje às vezes é tão difícil assim a questão da identidade sexual e da emancipação do jovem frente a usos e costumes do passado. E nem é necessário visitar culturar de religião mais ortodoxa ou leis mais rígidas, é só espiar além da porta do vizinho do bairro onde você mora.

Com um estilo acentuado e regado a trilha sonora descolada, o jovem protagonista apresentado nesta caldeira pop é seguro em sua posição escolar e já sonha com a carreira de maquiador de filmes de terror, pela qual treina em sua melhor amiga aspirante de modelo, a quem todos confundem com uma namoradinha. O problema começa quando se apaixona por um colega de trabalho, liberando o que antes estava reprimido, além dos mosntros do título que advém da separação mal resolvida dos pais e abandono da mãe que foi constituir uma nova família, deixando-o à mercê dos preconceitos do pai. Vide a paixão do garoto por filmes de terror, metaforizando a eterna depressão em que seu pai caiu por jamais esquecer a memória esmagadora da ex-mulher. Ou a excelente montagem da festa à fantasia no meio do filme, onde por poder se fantasiar de outra coisa que não sua fachada rotineira, enfim consegue liberar seus desejos mais escondidos que a hipocrisia alheia não lhe permitia desvendar, tudo de forma tocante e sensual.
A sinopse nem parece tão complexa, não fosse a forma como a história será contada se apoiar no lúdico e surrealismo gótico para inovar em trazer à vida os maiores pesadelos e desejos do garoto, muito próximos de forma sadomasoquista de quem não se permitia ser livre.

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Claro, para emular o diretor conterrâneo do Canadá e também enfant terrible, além de precoce em filmar desde muito jovem, sem falar na defesa dos direitos LGBTS, incorre também em alguns cacoetes modernos, como excesso musical até para cenas que dispensam tema sonoro, até simples cenas de transição. Outro ponto é que apesar de arquitetarem uma boa evolução de personalidade, a infantilização um pouco exacerbada do protagonista para encaixá-los nas ideias de roteiro que cobrem sua vida da infância à juventude acabam criando incongruências, como retratá-lo como um bebezão imaturo que ainda não tem a própria chave de casa, dorme na casinha da árvore e conversa com um rato que fala há quase 20 anos, como se pudesse ser o mesmo rato que não envelhece. Tudo isto cria uma patologia do crescer que não combina tanto com o tema da libertação da sexualidade, parecendo às vezes que os temas competem entre si, senão quase quer dizer que gay enrustido só não consegue se assumir para os pais porque são crianças imaturas, e isto seria reduzir um peso muito mais violento que a sociedade tem sobre o assunto.

Ainda assim, forte declaração como primeira obra, numa bela sintonia de acordes que tocam as diferenças com amor.

Festival do Rio 2016 – Mostra Panorama do Cinema Mundial

O Monstro no Armário (Closet Monster)

Canadá, 2016. 90 min

De Stephen Dunn

Com Connor Jessup, Aaron Abrams, Isabella Rossellini


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