O Mundo de Kanako

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03 de outubro de 2014

Em 2010, o diretor Tetsuya Nakashima levou para casa o prêmio do júri no Festival de Puchon com seu interessante “Confessions”, elevando-o ao patamar de um dos cineastas japoneses mais promissores da atualidade. “O Mundo de Kanako”, seu último longa-metragem, exibido no Festival de Toronto 2014, é mais uma prova de seu enorme talento. Baseado no romance best-seller “Hateshinaki Kawaki”, de Akio Fukamachi, Nakashima nos apresenta a um thriller extremamente subversivo e violento que desafia o público a montar o obscuro quebra-cabeça junto com seu protagonista.

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Mergulhado numa profunda depressão à base de culpa, solidão e remédios fortes após o divórcio causado por um flagra do adultério de sua ex-esposa Kiriko (Asuka Kurosawa) com o amante, o ex-detetive Akikazu Fujishima (o ótimo Koji Yakusho, mais conhecido no Brasil pelos papéis em “Memórias de uma Gueixa” e “Babel”) é convocado pela mesma a encontrar sua filha Kanako (a estreante Nana Komatsu), desaparecida há dias sem deixar pistas. À medida que prossegue com sua busca, Akikazu descobre que Kamako possui uma bizarra vida secreta e que de angelical sua filha distante de 17 anos só tem o rosto. Assim, o que era apenas uma busca de um pai por uma filha torna-se uma caça obsessiva com sede de vingança.

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Kawaki (no original) é introduzido por imagens que mostram o fundo do poço onde está Akikazu, mescladas a flashes de cenas que só serão esclarecidas mais à frente. Os créditos de abertura, inspirados na exploitation japonesa e em quadrinhos, também não deixam de ser uma ótima pista para o espectador. Para demonstrar a crueldade de Kanako, Nakashima alterna entre presente e passado, nos levando a 3 anos atrás sob a narração de um menino (Hiroya Shimizu) que sofreu nas mãos de Kanako, contando sua história por etapas. Seu nome não é mencionado em nenhum momento, pois ele é apenas mais uma vítima no meio de tantas outras.

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Com uso de humor sádico para quebrar um pouco o clima pesado da trama e o menor pudor em mostrar detalhes sangrentos, é possível perceber influências diretas do longa coreano “Oldboy”, também por haver estranhas (por assim dizer) relações entre pai e filha como subtrama, embora bem diferentes em cada filme. Já a presença de personagens caricaturados (destaque para o detetive Asai, interpretado por Satoshi Tsumabuki) e o excesso de sangue e violência nos remetem ao estilo de Quentin Tarantino.

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Outro ponto interessante da película de Nakashima é a constante utilização de citações de “Alice no País das Maravilhas”, curiosamente o livro de cabeceira de Kanako, na voz da mesma em diferentes cenas, com repetição do trecho em que Alice cai lentamente num buraco fundo. É a metáfora que permeia a história, repleta de personagens afundados em seu próprio vazio. Fugindo dos clichês e das soluções óbvias, “O Mundo de Kanako” prende o espectador em sua teia enredada num submundo sombrio e possui um desfecho surpreendente, sem espaço para redenção. Um presente de Nakashima aos fãs do gênero com nervos de aço. Sádico até a última gota.

 

Festival do Rio 2014 – Mostra Midnight Movies

O Mundo de Kanako (Kawaki)

Japão – 2014. 118 minutos.

Direção: Tetsuya Nakashima

Com: Koji Yakusho, Nana Komatsu, Satoshi Tsumabuki, Joe Odagiri e Miki Nakatani.