O Mundo Fora do Lugar

Novo filme da diretora alemã Margarethe Von Trotta, do cult "Hannah Arendt"

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12 de outubro de 2016

Em 2013, a cineasta alemã Margarethe Von Trotta esteve em todas as listas de melhores filmes do ano com seu cult instantâneo “Hannah Arendt”, baseado na personalidade histórica homônima. E a diretora também não é estranha a grandes premiações como o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1981 com “Os Anos de Chumbo”. No geral, seus filmes são duros e sóbrios para fazer crônicas dos períodos em guerra e sua consequente alienação geográfica e familiar (especialmente entre irmãs, tema caro à diretora), e a retratar biografias que sintetizem per si o espírito de uma época que se queira problematizar. Então, diante de tal rigidez narrativa, por que Von Trotta não poderia aliviar um pouco sua filmografia com um filme de gênero? Um romance com mistério e um tico de humor, certo? Cinema de gênero não é nenhum demérito, necessitando até de tanta ou mesmo mais técnica para alcançar o riscado.

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Em “O Mundo Fora do Lugar”, ela traz de volta inúmeros elementos descritos acima, além das próprias atrizes-assinatura com quem costuma trabalhar: Katja Riemann e a diva Barbara Sukowa, que parece como boa garrafa de vinho, pois fica ainda melhor com o passar dos anos. Sukowa fez a maior parte dos clássicos da diretora, incluindo o filme homônimo de outra figura verídica, Rosa Luxemburgo, apesar de aqui ceder mais lugar para Katja dentro do tema sororidade. A trama versa sobre mulher alemã que cede à pressão do pai por seguir uma sósia mais nova da falecida mãe até Nova York, até que, depois de alguma resistência em investigarem juntas, ambas irão descobrir que os homens em suas vidas apagaram parte do passado delas.

Sukowa rouba a cena interpretando a tal sósia, uma sofisticada cantora famosa de Ópera, e interpretando também a personagem da mãe falecida em flashbacks. O que poderia se tornar facilmente numa história de fantasmas, vai virando uma densa sessão coletiva de psicanálise com uma iluminação e direção de arte muito bem usadas a parecer que o filme vale milhões pra nenhuma Hollywood botar defeito. Aliás, como parte do roteiro passa por Nova York, parece até que a cineasta alemã ironiza os EUA e sua indústria comercial de cinema dando uma estética tão perfeita às ruas de lá que soa como paródia de plástico. Para além disso, como as duas protagonistas têm em comum serem cantoras, às vezes um ou outro recorte musicado parece excessivo, mas nada que prejudique o andamento da narrativa.

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Festival do Rio 2016 – Panorama do Cinema Mundial

O Mundo Fora do Lugar (Die Abhandene Welt)

Alemanha 2015, 101 min

De Margarethe Von Trotta

Com Katja Riemann, Barbara Sukowa

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4