O Nó do Diabo

Filme de gênero para denunciar o racismo e escravidão através do terror e horror psicológico

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02 de outubro de 2017

Na quinta noite competitiva, o cinema de gênero e a denúncia contra a violência doméstica foram trazidos ao debate com os filmes “Tentei” de Lais Melo e “O Nó do Diabo” que ainda traz mais um tema ainda mais doloroso, o racismo e a escravidão.

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Engraçado como o cinema de gênero ainda sofre preconceitos, tanto que no tradicional debate do dia seguinte, foi perguntado por jornalistas à mesa de debate no 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro sobre o lado politizado do filme “O Nó do Diabo”, onde a pergunta colocava em foco uma suposta dicotomia entre o filme de terror escapista e a metáfora politizada:

A resposta de um dos quatro diretores do longa episódico, Ramon Porto Mota, aproveitou para responder pedindo que em 2017 não precisemos mais olhar para o cinema de terror/horror como se o gênero não houvesse sempre sido politizado, como “A Noite dos Mortos Vivos” metaforizando o Vietnã e “Eles Vivem” sobre segregação social de classe etc… E este ano inclusive no cinema brasileiro de gênero com inúmeros exemplares já premiados e cotados em Festivais como “As Boas Maneiras” de Juliana Rojas e Marco Dutra e “Animal Cordial” de Gabriela Amaral Almeida.

Em outra parte muito interessante do debate sobre o filme “O Nó do Diabo”, falou-se sobre o uso de uma ancestralidade de nossa história escravocrata para trabalhar o terror e o horror, de forma potencialmente delicada, já que é uma denúncia e gera desconforto.

E um dos 4 realizadores, que dirigiu o 2° episódio e corroteirizou quase todos os outros, Gabriel Martins, comenta a importância de poder se apropriar do cinema de gênero para resgatar toda uma história. Diz que ele mesmo ainda está sentindo o incômodo do filme ressoar nele mesmo, que quase saiu algumas vezes da sala pelo desconforto que a denúncia provoca, mas que isso é importante num 50° Festival de Brasília que está vendo o reconhecimento de uma excelente reflexão para o cinema que está trazendo filmes a dialogar uma obra com a outra. Enquanto “Café com Canela” de Glenda Nicácio e Ary Rosa começou a catarse com um abraço, agora esta sensação continua, só que despertando desconforto para tirar a discussão do lugar comum. E ressaltou que é bom ampliar o uso de referências desde Cronenberg e Lynch, explicando a importância de poder assimilar também referências brancas para um cinema negro, nas palavras de Gabriel.

Vale ressaltar que as atrizes falaram muito sobre o respeito à espiritualidade trazida em muito pelas próprias atrizes do elenco e que, mesmo nos episódios não necessariamente focados na religião, estavam ali na corporalidade e para pedir licença e respeito a todos os códigos e signos extremamente dolorosos da escravatura trazidos para dentro da denúncia da catarse cinematográfica.

Ou seja, o debate também serviu para falar sobre Protagonismo Feminino – porque o filme “O Nó do Diabo” é dirigido e roteirizado por homens, porém possui forte presença feminina que suas atrizes presentes, Cíntia Lima e Clebia Sousa, explicam no vídeo que tiveram bastante liberdade criativa para politizar o filme.

Também se abriu espaço para se falar sobre Apagamento histórico — afinal, na 50° edição de aniversário deveríamos estar lembrando dos 80 anos do grande cineasta/ator Zózimo Bulbul, além de ser muito marcante que Zezé Motta esteja em um longa na Mostra Competitiva dos 50 anos de Festival do qual sua história é profundamente intrínseca ao cinema brasileiro.