O Novíssimo Testamento

Belo filme à la Amélie Poulain com crônica bíblica moderna de matar de inveja 'Os Dez Mandamentos'

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03 de fevereiro de 2016

Existem produções que se encaixam tão perfeitamente em nichos rentáveis para os estúdios que viram fórmulas a serem repetidas ad infinitum. Raramente surgem filmes que quebram esses nichos e os reinventam. Quando isto acontece, a fórmula resultante da anomalia que quebrou a predominância da anterior dificilmente vira um novo nicho, pois é difícil reproduzir algo que chegou justamente para quebrar paradigmas e não criá-los. Foi assim que surgiu um dos maiores cults da geração mais recente de cinéfilos: o francês “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” de Jean-Pierre Jeunet. De fortes coloridos, agridoce e fofo na medida, estranho e acolhedor ao mesmo tempo, sua mítica personagem e desventuras dão saudades nos fãs, que reclamam que quase não são mais feitos filmes assim. Eis que surge “O Novíssimo Testamento” de Jaco Van Dormael. Com escolhas cromáticas exóticamente em consonância com as de Amélie, e também guiado por uma forte personagem feminina, desta vez uma criança, e que também guiará personagens esquisitos e solitários a reencontrar amor e esperança na vida. A premissa, porém, é ainda mais original. Uma analogia a famílias disfuncionais vira uma fábula sobre menina que foge de casa pra fugir da opressão do pai e da omissão da mãe, que aqui são respectivamente a irmã menor de Jesus Cristo, Deus e sua mulher. Enquanto o Pai-Criador vive gerenciando de maneira sádica o mundo de seu computador, não dá a devida atenção à sua família, até que sua filha envia para todos os humanos a data de suas mortes e foge à cata de novos Apóstolos para complementar os 12 originais do Novo Testamento. Daí o nome do filme.

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Tendo causado frisson em Cannes 2015, principalmente por ter a diva atemporal Catherine Deneuve como uma das Novíssimas Apóstolas, ainda mais em situações cômicas inusitadas como dormir com um gorila, o fato é que o argumento original não deixa de ser o ponto alto aqui. O conceito de brincar com o retrato de todas as famílias disfuncionais como reflexo do Deus-Pai Todo Poderoso (um aqui caricato Benoît Poelvoorde) é muito tentador para não se imaginar inúmeros caminhos grandiosos que o roteiro poderia ter enveredado a história. Porém, a pretensão do filme em nenhum momento é esta, optando por uma dramédia fabular de maior encantamento do que provocação. Até há una dois Apóstolos muitíssimo bem escritos, com complexidade crônica da sociedade, mas perdem poder ante a repetição de arquétipos dos outros Apóstolos mais repetitivos e redundantes, que não se costuram perfeitamente, e mais parecem como gags de riso ou estranhamento.

Um ponto impecável é o visual, de deixar Jean-Pierre Jeunet orgulhoso. Multicolorido sem nunca parecer saturado, cada Apóstolo visitado ganha uma identidade visual própria, com influências pictórias clássicas diferentes. Sem falar que o filme se filia à corrente feminista que já anda vindo desde 2015 em empoderar personagens femininas centrais, como a encantadora menina irmã de Cristo e a mãe omissa, esposa de Deus, que terá uma grande transformação a enfrentar. Um filme gracioso, leve, belíssimo esteticamente, mas que peca por desviar da grandiosidade em potencial com alívios cômicos as vezes bobos ou emoções esquecíveis, que recupera a catarse apenas com o lírico final lisérgico.

Não se iguala à Amélie Poulain, mas nem precisa, pois já triunfa na difícil tarefa que era seguir uma fórmula a princípio inadaptável.


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