O ódio será a herança do faroeste na obra-prima de Quentin Tarantino

Com estreia no Brasil prevista para 7 de janeiro, 'Os Oito Odiados', marcado por uma estrutura teatral e atuações magistrais, inaugura uma nova fase na obra do cineasta: mais individualismo e mais descrente na ética

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24 de dezembro de 2015

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Nos tempos cinematográficos em que o faroeste era a Ilíada do mundo, ou seja, a narrativa constitutiva dos valores modernos, com sua noção de Bem e de Mal expressa no conceito de mocinhos vs. bandidos, Hollywood criou um cógito (quase cartesiano) segundo o qual o western é igual a imensidão espacial, bangue-bangue é igual a terras inóspitas imensas a serem desbravadas. Assim profetizaram os Homeros do filão: John Ford e Howard Hawks. Contudo, a partir de 1950, quando cicatrizes da Segunda Guerra arranharam a representação clássica do escapismo heróico e o politicamente correto engatinhou seus primeiros passeios pelas telas, realizadores como Anthony Mann (em Winchester 73 e em E o Sangue Semeou a Terra) subverteram esse cartesianismo ao criar o chamado western psicológico onde as pradarias mais perigosas eram aquelas esculpidas na mente dos próprios caubóis, duelo após duelo. Dali pra diante, virou moda uma modalidade mais huis clos do faroeste, de ambientação fechada, que deu mais valor às inquietações existenciais de seus protagonistas, tridimensionalizando seus sentimentos, humanizando-os, o que foi fundamental tanto para o spaghetti de italianos como Sergio Leone (O Bom, O Mau e O Feio), quanto para o cinemanovismo de americanos como Arthur Penn (Pequeno Grande Homem). E é a essa corrente de Reforma… na forma… no ethos… na ética… que Os Oito Odiados (The Hateful Eight), talvez o mais ousado de todos os filmes de Quentin Jerome Tarantino, está filiado.

Com estreia no Brasil prevista para 7 de janeiro, o longa-metragem entra em circuito nos EUA neste Natal. Será lançado ali com fome de prêmios, já que concorre ao Globo de Ouro em três categorias: trilha sonora, roteiro e atriz coadjuvante, para Jennifer Jason Leigh. Merece ganhar em todas essas frentes.

Há sim exuberância visual como poucas vezes se enxergou no dito far-west, por conta da captação em película Kodak 65mm a fim de viabilizar uma projeção em 70mm, nos moldes do que se fazia com os épicos hollywoodianos. Captada assim a qualidade da imagem valoriza mais e melhor a dimensão agigantada da tela. E a fotografia de Robert Richardson (ganhador de Oscars por A Invenção de Hugo Cabret, O Aviador e JFK) se lambuza com a progressão aritmética de possibilidades à sua frente para imprimir beleza (e gerar epicização) ao fitar o mundo nevado à sua volta, em locações míticas no Colorado. Mas a exuberância não se limita ao mundo aberto, à neve. Ela é ainda maior nos planos em que a ação se concentra numa taberna fedida a guisado, colorida em tons de sépia, marrom-madeira e vinho. É ali que Os Oito Odiados explode como a obra-prima que seus reclames prometiam – mais uma obra-prima do homem que nos deu Bastardos Inglórios. Uma obra-prima da palavra: palavra-chumbo. Quente.

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O cenário é este: estamos no Wyoming. A câmera acha um lugar de (des)conforto para si após testemunhar uma longa peregrinação por uma nevasca, na qual se percebe um certo ar de protagonismo no caçador de recompensas John “The Hangman” Ruth (Kurt Russell, numa atuação à altura de seus melhores dias sobe a direção de John Carpenter, de quem foi ator-fetiche). O mesmo ar se faz sentir em torno do ex-militar da Guerra Civil Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson, em estado de graça). Ruth arrasta consigo a criminosa condenada à forca Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh, na atuação mais luminosa de sua carreira). E a eles se junta o Xerife Mannix (Walton Goggins, vilão em Django Livre, que aqui mostra ser um ator de ilimitada ferrametas). Eles se arrastam frio adentro, ao som da trilha sonora original de Ennio Morricone até chegar a um saloon/pensão. Uma vez protegidos do frio eles encontram Bob “The Mexican” (Demian Bichir), Oswaldo “The Little Man” Mobray (Tim Roth), Joe “The Cow Puncher” Gage (Michael Madsen) e Sanford “The Confederate” Smithers (Bruce Den). Pronto! Eis os tais “oito” do título, todos juntos. Ali, o ódio de cada um há de ser uma arma carregada de sagacidade. Ou de fúria.

O que existe de virtuoso nesses sete homens e nessa mulher dada a deboches? Só a virtude de matar sem culpa. Não há bondades implícitas nem maldade explícita. Há, em Ruth, o interesse na recompensa por Domergue. Há em Warren um ranço contra o racismo do qual nem mesmo sua farda condecorada foi capaz de livrá-lo. E há em Mannix (talvez o melhor personagem de todo o filme) um certo senso de ordem, mas por conveniência, não por altruísmo. Dos demais, é melhor que não se fale muito. Vai ser dito um pouco (ou tudo) sobre cada um a cada virada do roteiro, a cada tomada. Não se esqueça: não é o faroeste homérico, fordiano ou hawkisiano, é o western do ID e do ego, psicanalítico, pensado. Há menos pólvora e mais tensão. Mais mistério que músculo, num suspense constante, que evoca uma referência cinéfila muito distante do bangue-bangue: o thriller sci-fi de horror O Enigma do Outro Mundo, do já citado Carpenter. Não é por acaso que Russell está ali, numa espécie de teatro, num palco de encenações onde o faz-de-conta pode ser mais letal que a rapidez no gatilho.

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Teatralidade é a chave deste filme sobre individualidades que dói fígado em sua descrença absoluta na boa conduta, no respeito ao próximo. Tarantino mudou sua forma de narrar, antes digressiva, espaçosa (por ser reativa ao número de ambientes à sua volta) e mais luminosa. Os Oito Odiados é mais intimista – porém igualmente aeróbico em sua movimentação de câmera rosto a rosto, cadáver a cadáver – e mais palavroso. Estas almas prometidas à Danação ali naquela taverna têm muito a dizer, muitos pecados a confessar, muita roupa suja (de sangue) para lavar. Sobretudo Domergue, que numa reviravolta de script magistral, vai crescendo como fêmea guerreira, como chave de cadeia e como expressão da marginalização da mulher no Oeste a ponto de trocar uma suposta redenção (verbete tão essencial à dramaturgia) pelo exercício de sua tão anunciada ruindade. E, a partir desse exercício de poder, Jennifer Jason Leigh cresce à exponenciação plena de seu vigor artístico, numa interpretação histórica, daquelas que só Tarantino sabe arrancar, entre o humor cítrico e o denuncismo moral.

Llorruane The Hateful Eight tarantino QT

Mas a maneira como Domergue vai sendo delineada é um espelho da maneira como a própria filmografia de QT evoluiu. Celebrizado nos anos 1990 a partir de uma trilogia sobre malandragem, reunindo Cães de aluguel (1992), Pulp Fiction (1994) e Jackie Brown (1997), ele criou uma ali uma lógica sobre “gentinha”, a massa do submundo, interessado em saber como gente chamada de marginal sente, ama e goza. E, com esse gesto, o cineasta assinou a carta de alforria para que o pop saísse da senzala da cultura e virasse matéria de reflexão, ao retratar criminosos discutindo Like a virgin. Depois, ele embarcou numa outra fase, mais barroca em seus excessos e antíteses morais, preocupada mais com a exegese da imagem do que com a força do verbo nos diálogos de seus anti-heróis. Essa curva começa em Kill Bill: Volume 1 (2003) e seguiu até Django Livre (2012), sempre fazendo da vingança uma espécie de fagulha para incendiar o tema que virou seu Norte: o resgate de honras maculadas por agentes de um poder não institucionalizado. E a cada passo, ele foi se politizando mais e mais.

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Numa espécie de ressaca pela descrença na autorregeneração dos homens, Os Oito Odiados parece vir inaugurar uma terceira margem na trajetória de Tarantino, menos antropológica do que a de seus primeiros gângsteres fãs de Royale With Cheese, menos sociológica do que a seus nazistas poliglotas. Agora, neste faroeste invernal, a política é o indivíduo, a ideologia é o verbo lucrar, a esperança é um ganho congelado e a palavra “herói” é um sujeito oculto. É um espelho de uma governança em crise: a governança do país natal do diretor, país que um dia tinha no western uma balança estética de correção. Agora, o ódio é a única herança do gênero, que faz de Tarantino, uma vez mais, um dos maiores cineastas da História. Que filme!

 

 

 

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5