O ofício de um Crítico de Cinema…

A historiografia através dos filmes e seus porta-vozes

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09 de janeiro de 2020

Entendo que o conceito formal de ganhar dinheiro ou não com aquilo que se faz por amor é socialmente impeditivo de acharmos pacificamente que seja um ofício, já que “ofício” seria o que nos “sustenta financeiramente” por uma visão calvinista e capitalista — porque, senão, quem trabalha com trabalho solidário/voluntário, por exemplo, tipo Madre Teresa de Calcutá, voluntários sem fronteiras ou Doutores da Alegria seriam uns “vagabundos”, segundo a ideologia do atual presidente, por exemplo.

Infelizmente, todos os críticos de cinema (e, digamos, das artes em geral) têm trabalhos por fora, senão o sustento financeiro não vem.

Esse é um dos lados negativos de uma carreira que não é reconhecida até hoje à altura do que faz.

Porque tipo, o imaginário do senso comum sobre o que seria a utilidade de um crítico na sociedade ficaria restrito muitas vezes à possibilidade de se destruir ou adular filmes rsrs, como o personagem Anton Ego parodia em seu monólogo antológico ao final do filme “Ratatouille”.

Quando, na verdade, o crítico é como um historiador do cinema, é alguém que testemunha e acompanha com diálogo ativo de reflexões o registro dessa história, e de como essa história reflete a evolução social… Como cada momento representa (ou não) o seu tempo, e como isso pode influenciar ou até ser uma frente de defesa democrática à cultura e sua importância ao imaginário coletivo.

E a forma como as pessoas se vêem refletidas de fato influencia na personalidade que sua sociedade se sente segura ou não para se colocar no mundo…

O exemplo mais clássico disso são estatísticas: como a recente do Filme “Uma Mulher Fantástica” do chileno Sebastian Lelio, cujo sucesso internacional ajudou a que desengavetassem o projeto de lei anti lgbt-Fobia e que fosse aprovado em Congresso! Lembrando que o filme não ganhou nem melhor filme nem atriz em Berlim, onde estreou, sendo que o prêmio de melhor atriz, então, até hoje eu acho uma das maiores injustiças da história do Festival. E a crítica, a curadoria de outros Festivais e Mostras relançando o filme, e o povo igualmente se identificando com isso, fizeram todos eles com que sua campanha se fortalecesse ao Oscar no ano seguinte!

A mesma coisa com os filmes de Bergman, cujas “DR”s fizeram muitos casais discutirem de fato seus relacionamentos e se conscientizarem do direito de divórcio, cujo índice subiu na época justamente porque as pessoas sentiram a liberdade de não mais ficarem presas a casamentos que não lhes fizessem bem só porque as convenções lhe dizem para não sair dessa!

Isto são os filmes trocando diálogo com o seu tempo, através de ferramentas como oa críticos. Tipo Bacurau o fez.

Boa parte das minhas amizades (além de mim mesmo) possuímos um extenso trabalho e empenho neste sentido que digo acima. Dedicar boa parte da vida, não necessariamente paga, para não só ver filmes, como doar parte de si pra fazer conexões e criar expressões próprias e correlacionadas de diálogos com estes filmes e com os destinatário deles… Com públicos que talvez nem fossem ter consciência deles se não fosse o trabalho crítico. E, sinceramente, posso dizer com toda a satisfação do mundo para vocês que se debruçam nesta seara também: Vocês são todos SENSACIONAIS! Sou fã!

Nisto, convém compartilhar na íntegra o célebre monólogo do personagem crítico Anton Ego (um nome que já alude às palavras ‘antagonismo’ e ‘ego’) no filme “Ratatouille”, que eternamente desconstrói, como um lema ou um hino, as percepções equivocadas que as pessoas possuem dos críticos:

“De muitas formas o trabalho de um crítico é fácil. Geralmente temos muito pouco risco a correr, mas sorvemos da posição de quem se põe sobre a obra daqueles que nos oferecem a mesma para julgamento. Nós prosperamos em críticas negativas, que são divertidas de se escrever e de se ler. Mas a amarga verdade que nós críticos devemos encarar é que no quadro maior das coisas, a obra mais comum é provavelmente mais significativa do que nossa crítica que a designa. Mas há momentos em que o crítico realmente arrisca algo, e é na descoberta e defesa do novo. O mundo geralmente é indelicado com novos talentos, com as novas criações. E o novo precisa de amigos.”

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