O Pátio

Clássico de Glauber Rocha com Helena Ignez completa 60 anos de criação e é um dos filmes exibidos na homenagem para Helena Ignez na 19ª Goiânia Mostra Curtas

por

13 de outubro de 2019

Curta “O Pátio” de Glauber Rocha com Helena Ignez e Solon Barreto ganha exibição especial em homenagem na 19ª Goiânia Mostra Curtas para celebrar os 60 anos de carreira da atriz e diretora Helena Ignez.

72690460_3166099860129363_3216092913066835968_n

O curta-metragem “O Pátio” foi a primeira obra de audiovisual tanto para o saudoso ícone cineasta Glauber Rocha quanto para uma das maiores atrizes da história do cinema brasileiro, ora também diretora e produtora, Helena Ignez, cujo début foi lançado em 1959. Fazendo aniversário de 60 anos agora em 2019, nada mais justo que a homenagem concedida na noite de abertura do 32° Goiânia Mostra Curta à grande e multifacetada Helena Ignez fosse acompanhada de uma exibição do respectivo filme, numa sessão especial que também contou com o curta “Ossos” dirigido pela própria Helena Ignez (2014) e o curta “Extrato” dirigido pela filha de Helena, Sinai Sganzerla — que este ano também lançou um longa-metragem de homenagem à mãe, chamado “A Mulher de Luz Própria”, representando todo um trabalho de pesquisa sobre a vida e o aniversário da carreira de Helena.

MV5BMzVjOGI2NWMtMmIzNi00NTI0LWEwMWQtYjQ4ZTQwODNlYWVkL2ltYWdlL2ltYWdlXkEyXkFqcGdeQXVyNTU3MTY2Mg@@._V1_

“O Pátio” é um marco também para o chamado Cinema Novo, um movimento brasileiro histórico de reconhecimento internacional. Ainda mais por tanto Glauber quanto Helena terem vindo da Bahia, o que simboliza toda uma nova representação do Nordeste que as décadas de 50 e 60 trouxeram na sétima arte nacional para o mundo. E de fato este filme de curta duração teve o tamanho de um gigante. Existe um jogo acontecendo na tela. Uma relação de forças identitárias com o que se resistia ao período crescentemente opressor que precedeu o Golpe Militar de 1964…

A importância desta obra é inegável. E não sou eu quem tenho a agregar a ela, e sim ela que tem a nos agregar, e muito, com suas ressignificações crescentes no tempo. Tanto que este a vos escrever, na figura de professor de História do Cinema, não deixa de fazer uma nova exibição a cada semestre para todas as turmas que passam por minha classe. E toda turma agrega uma nova releitura ao longo destes anos de docência que faz valer à pena recapitular e lançar outras luzes sobre esta data comemorativa. Não apenas pelo filme, mas pelo momento de instabilidade e insegurança que se volta a viver no Brasil desde o Impeachment de 2016, ou “Golpe Parlamentar” (assim nomeado até pelo próprio vice-presidente Michel Temer, que fez parte do processo e ocupou o cargo da presidenta que sofreu o Impeachment, Dilma Rousseff).

maxresdefault

“O Pátio” possui praticamente um único cenário com a estética de um tabuleiro de xadrez. Dentro dele, um homem e uma mulher dispõem seus corpos em inúmeras tensões e fissuras como peças que não querem ficar atadas às regras impostas por terceiros, especialmente se estas não lhes representam ou não foram decididas por eles mesmos. Poderia se chamar a dupla de um “casal” na busca pelo outro, pelo encontro, pela liberdade, mas restringi-los a um mero casal seria deveras reducionista. Afinal, em plenos anos 60 também se vivia outra onda da primavera feminista no mundo com a repercussão de obras seminais como “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir e “A Mística Feminina” de Betty Friedan. E a ora atriz Helena Ignez (que também foi uma das produtoras do filme, mesmo que não creditada) estava já atinada aos acontecimentos e atualizações constantes de ideias e performances dessas novas representações políticas. Lembrando que Helena também possui uma forte tradição teatral e uma presença corporal e gestual que contribuíram em muito para a força do curta-metragem, que não possui diálogos nem qualquer narração.

E eles dançam! Mesmo parados eles dançam… Porque a música na verdade é a câmera de Glauber, os passos são os ângulos inusitados. – Desde um plongé para representar a opressão, vendo a dupla de cima pra baixo, a diminuir seus tamanhos, planos-detalhes de mãos, pernas e pés, a tentar se aproximar pra ganhar força, quando até isso lhes era proibido. Aqueles corpos deitados de início, preenchendo os quadrados pretos e brancos como um acondicionamento pré-determinado, vão se libertando da pesada gravidade que os prendia ao solo.

A câmera que de início filma o tabuleiro como um quadro ou uma televisão de vários quadros dentro da mesma tela também vai se libertando, ganhando espaço, querendo mirar o horizonte. O jogo é cercado pela natureza incontida, pois a manipulação espacial têm limites perante a força da vida que invade e ressoa. Existe vida em todo o entorno, no alto da elevação montanhosa onde se passa a cena, nas árvores esvoaçantes e no mar ao fundo — um elemento muito caro tanto à Bahia quanto a Glauber em toda a sua filmografia. O mar interliga cenas e até filmes, cercando desde o final de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e o início de “Terra em Transe”. Tudo um ciclo transcendental, pois existe certa espiritualidade no uso constante de água por todo o lado, como a aparição mística de Luíza Maranhão nas ondas de “Barravento”, quase Iemanjá, no primeiro longa de Glauber que foi realizado logo após “O Pátio”.

Os corpos vão se estendendo para além dos quadrados do xadrez, e vão ganhando terreno. Ora se erguem ora se sentam, como se evoluíssem o caminhar muito aos poucos, feito o engatinhar de um bebê. O fardo é pesado e precisam se sentar. Quem está guiando esta dança, quase um tango em sua dramaturgia trágica, sem necessidade de música alguma….? O homem abre caminho e a mulher segue (em se tratando de 1959?). Ou a mulher é quem está impulsionando a imobilidade acomodada do homem?! O vai e vem do tango.

E apesar de prescindir de uma trilha musicada propriamente dita, Glauber já inovava com o desenho de som, algo como uma fusão de vozes indistintas, vento, o barulho de uma interferência incômoda, quase um apito… Há um contorno de sons que enquadram os movimentos do casal. Que massa de vozes seria esta que começa a irromper no vento quando os corpos começam a se encontrar? Por que a estática do apito desconfortável que suprime essas vozes? Mas a natureza ali é uma constante, como um farol ou uma âncora, para impedir que estes pescadores de sonhos se perdessem na jornada — todos elementos muito presentes nas obras de Glauber, e também de outros cineastas baianos, como Roberto Pires de “A Grande Feira”, outro filme com Helena Ignez e também a já citada Luíza Maranhão.

Todo semestre há novas leituras dos alunos para este clássico. Sempre dependendo de em que momento se dá sua exibição. Se perto de alguma aula sobre a Nouvelle Vague Francesa, perguntam sobre a possibilidade de Glauber poder ter assistido ao clássico precursor “La Pointe Courte” de Agnes Varda (1954)… Um registro entre o documental, a ficção e a performance, quase numa discussão de relacionamentos através do deslocamento de corpos. Por volta do mesmo período que Varda, Alex Vianny fazia no Brasil seu cult “Agulha no Palheiro” e Nelson Pereira dos Santos fazia outra pedra fundamental para o mundo, o longa “Rio, 40 Graus”. Será que Glauber tinha consciência assumida de beber da fonte da relação existencial do casal protagonista imerso na consciência social de classe, gênero e até de raça que estes três filmes supracitados imprimiram? Afinal, era um período de forte cineclubismo que exibia filmes raros em movimentos estudantis e universidades, já que alguns desses filmes ainda não necessariamente chegavam ao circuito comercial.

Ou mesmo, quando ministrado perto das aulas sobre Zózimo Bulbul, grande ator lançado no Cinema Novo (“Cinco Vezes Favela”, “Ganga Zumba”, “Terra em Transe” etc), que também se tornaria um cineasta paradigmático e fundador da consciência de representatividade negra no audiovisual, as turmas perguntam sobre o jogo relacional estabelecido entre “O Pátio” e outro curta-metragem clássico, “Alma no Olho” (1973), dirigido pelo próprio Zózimo. Mesmo em tempos diferentes, “O Pátio” já denunciava as regras pré-estabelecidas que não representariam o povo, levando ao Golpe de 64 e à repressão de direitos do AI-5. Decerto, “Alma no Olho” acrescenta uma interseccionalidade racial inexistente ainda no filme inaugural de Glauber, a qual só viria a ser abordada no longa “Barra Vento”. Mas as vidas que estão em “jogo” no filme de Zózimo estavam sendo tiradas desde muito antes do Golpe, pelo racismo estrutural jamais combatido quando a Lei Áurea aboliu a escravidão, pois as regras continuaram não sendo paritárias nem justas. Será que Glauber entendeu isso quando viu o filme do amigo Zózimo, com quem trabalhou em “Terra em Transe”?

Outro intercâmbio na sala de aula acontece quando temos a oportunidade de convidar a participação especial de outros colegas professores para ministrar olhares diferenciados, como quando o amigo Sérgio Rizzo, professor da mesma cadeira de História do Cinema na Academia Internacional de Cinema de São Paulo, fez uma visita à nossa unidade AIC do Rio de Janeiro. Na ocasião, ele também exibiu “O Pátio” para os alunos e fez conexões com alguns planos surrealistas do clássico “O Cão Andaluz” de Luis Buñuel, como também associou um pouco do jogo minimalista de corpos com a mise-en-scène do cineasta japonês Yasukiro Ozu, com filmes do naipe de “Era Uma Fez em Tóquio”. Bem como, ao citar Ozu, Sérgio denotou que muitos filmes o fazem pensar em músicas específicas que lhe emulam um mesmo sentimento, como a banda de rock homônima ao saudoso cineasta nipônico, denominada simplesmente “Ozu”… – Algo que pode criar interpretações mis para cada espectador que se sentir de modo diferente perante a mesma obra.

Por fim, quando o filme é visto sob a ótica do cinema contemporâneo, as turmas mais recentes fizeram um trabalho de cruzar referências com o filme também em curta-metragem do cineasta Clementino Júnior,  não por coincidência denominado “O Jogo” (2018), onde personagens agora mais jovens precisam superar a violência policial e o estigma do olhar hegemônico. O diretor aproveitou outro tipo de tabuleiro mais subjetivo, uma estética de videogame, e as crianças “brincam” de polícia e ladrão numa definição que continua tirando vidas mesmo hoje, e da qual todos queremos nos libertar, dentro e fora dos filmes.

Pois filmes estão aí para serem lembrados e revistos, atualizados à luz presente e engrandecidos pelas novas causas e lutas recentes. Por isso “O Pátio” é eterno e continua gerando tantos debates e cruzamento de referências como esta lista exemplificativa de tantos filmes que podem se comunicar e expandir a análise. Pois que viva o cinema e a preservação de sua memória agora e sempre! Viva Helena Ignez!