O Pequeno Príncipe Preto

Ancestralidade com reverência e atualidade

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24 de fevereiro de 2019

Dica de Teatro: Assistam “O Pequeno Príncipe Preto”, dirigido e roteitizado por Rodrigo França (reconhecido no momento por participar do novo BBB), e protagonizado em monólogo bem inventivo e cheio de energia por Junior Dantas (muito lembrado pelo trabalho com a maravilhosa Cia OmondÉ).

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A peça é voltada para o público infantil, mas é tão mágica e permeada por questões afirmativas e positivas da atualidade, como Marielle Franco e o resgate da ancestralidade negra brasileira, que os adultos terão muito no que mergulhar se conseguirem se render ao lúdico pela perspectiva de um novo olhar. É muito lindo de ver o brilho das crianças e familiares em absorver tanta História com H maiúsculo em geral invisibilizada no mundo e que ora urge e clama por sua identidade, ainda mais dentro do universo de um personagem tão querido e conhecido como o Pequeno Príncipe.

E quem disse que o Pequeno Príncipe não poderia ser negro e que ele justamente não signifique um amor universal que a todos represente? Esta foi a grande sacada do autor e diretor Rodrigo França em adaptar o texto para esta nova versão, que encontra em Júnior Dantas a representação perfeita para sustentar vários personagens em um só corpo, mas com espírito múltiplo (e uma banda maravilhosa com instrumentação à caráter para a imersão na acestralidade afro brasileira). Isto é importante tanto para o público negro, quanto para o público branco em desconstruir sua branquitude. Todas as crianças podem se beneficiar de ideais de união e representatividade.

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Excelente adaptação do texto de Antoine Saint-Exupéry para um Pequeno Príncipe de raízes históricas afrodescendentes de modo a adaptar a rosa para uma ávore de Baobá, a responsabilidade pelo que cativa para Ubuntu, e a estrela que guia a jornada para uma pipa. A raposa ainda está lá, e a serpente ganhou novos significados perante a modernidade urbana de prédios, celulares e alienação social coletiva que precisa resgatar a humanidade. E que o faça através da interseccionalidade racializada, pois é o verdadeiro coração e realeza do Brasil. Lindo e terno e atual.

A peça só fica no Teatro Dulcina mais este domingo (17h) e segunda-feira (19h) após ter feito uma belíssima temporada descentralizada através dos teatros de todas as regiões do estado.