O Peso do Passado (Destroyer) – 20° Festival do Rio

Nicole desconstruída

por

08 de novembro de 2018

Com algumas poucas pessoas a quem respeito no meio da crítica cinematográfica chamando “O Peso do Passado” (no original “Destroyer”) de Karyn Kusama de obra-prima… Quem sou eu para desacreditar as poucas coisas que andam motivando e animando as pessoas neste estado politicamente desabonador brasileiro, mas simplesmente não deu certo para mim. Todo costurado a partir da premissa de uma vingança dilatada no tempo e na memória, é uma pena que o vai e vêm da montagem não consiga envolver com os arquétipos erigidos como sustentáculo. Principalmente o vilão, mal construído sobre um fiapo de trama que aludiria a uma espécie de seita da qual a protagonista na pele da grande atriz Nicole Kidman precisaria se libertar…

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Mas grande parte do problema reside justamente no abismo entre a debilidade do antagonismo e a grandeza de Kidman, cuja interpretação já vinha extremamente alardeada como uma desconstrução memorável, totalmente desglamurizada e destruída com ajuda de muita maquiagem (razoável) e perucas diversas (todas horrorosas), pois a destruição na pele e envelhecimento da atriz não corresponde ao tamanho do trauma que ela leva 17 anos para superar roteirizado de forma pouco crível. Talvez e precisamente porque a montagem retarde o máximo possível para o final algumas informações para guardar uma surpresa dentre os lapsos temporais do filme, o que esvazia a ligação com a protagonista que perde o poder de conexão até que chegue a revelação que lhe dará empatia, e aí você chega ao final mais com indiferença do que com o envolvimento necessário.

Ainda assim é muito positivo o esforço de ver uma boa diretora (de êxitos indies como “The Invitation” que no Brasil foi direto para Netflix, e fracassos retumbantes de forma cult como “Aeon Flux”), ainda mais com uma atriz forte guiando a trama truculenta e amoral que geralmente seria guiada 100% por protagonistas masculinos — ainda que não tenha sido este exemplar aquele que será lembrado por mudar o jogo, mas sim um passo a mais no caminho de mudança atual.

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