O planeta é dos macacos, mas o show é de Woody Harrelson

Duas vezes indicado ao Oscar, o astro de cults como 'Assassinos Por Natureza', hoje livre do alcoolismo, tem uma atuação genial como o algoz dos símios da melhor franquia da Fox

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02 de agosto de 2017

Aos 56 anos, o ator texano Woodrow Tracy Harrelson vive a melhor fase de sua carreira, que encontra seu apogeu no papel do Coronel, um déspota com ecos de Marlon Brando em "Apocalypse Now"

Aos 56 anos, o ator texano Woodrow Tracy Harrelson vive a melhor fase de sua carreira, que encontra seu apogeu no papel do Coronel, um déspota com ecos de Marlon Brando em “Apocalypse Now”

Rodrigo Fonseca
Cria do seriado Cheers, revelado para o estrelato em 1985, Woodrow Tracy Harrelson estampou a capa da The Hollywood Reporter, no finzinho de julho de 2017, com muito a celebrar: a vitória sob seu alcoolismo, a série de filmes autorais de prestígio para os quais foi convidado e a unânime ovação da crítica à aventura de tintas sci-fi Planeta dos Macacos: A Guerra. O destaque em boa safra das resenhas é o desempenho dele nessa produção de US$ 150 milhões, rodada em locações florestais no Canadá, sob a direção de Matt Reeves (o mesmo de Cloverfield: Monstro), trazendo a personificação plena do símio César e seus irmãos primatas. A forma humana aqui é vilã, sobretudo a figura despótica do Coronel, o personagem de Harrelson neste terceiro tomo da fase mais recente de uma franquia de nove longas-metragens, iniciada em 1968. Há ódio em cada quadro em que o ator parece, em meio a um elenco pouco ou quase nada conhecido, no qual é o único rosto estelar. E, apesar do esforço hercúleo de Andy Serkis para ampliar a paleta de emoções de César, é só no astro de  cults como Assassinos por Natureza (1994) que conseguimos prestar atenção. Até porque a curva trágica que guia todos os acontecimentos se desenha em torno dele.

Com uma arrecadação global estimada em US$ 230 milhões, War For The Planet of the Apes é o exemplar menos tecnológico da porção anos 2000 da série inspirada por um livro de 1963, o interespecífico Le Planette des Singes. Sua prosa é assinada pelo francês Pierre Boulle, também autor do romance do qual David Lean extraiu o clássico A Ponte do Rio Kwai. Adaptado para o cinema em 68, o livro simiesco de Boulle foi o pontapé inicial de todo o ecossistema em pane no qual o macaco César, dotado de linguagens humanas e mais uma série de dotes típicos dos bípedes capitalistas, lidera uma horda de gorilas, micos, babuínos e afins. E muitos deles sabem atirar como ninguém com uma AR-15 na mão. Nos filmes anteriores, ambos sucessos, de 2011 e de 2014 (este também de Reeves) havia um parque high-tech maior no embate entre a raça humana e os animais que ganharam o dom de explicitar sua consciência. E entre eles, há uma praga que adoece os Homens, tirando-lhe a coordenação motora. Mas aqui, neste radicalíssimo exercício de niilismo diante da intolerância nossa de cada dia, o ambiente do progresso industrial dá lugar a uma luta quase medieval. E, nela, nosso coração bate por César e seus ideais de preservação.

Supremacia 7 War for the Planet of the Apes 7 Planeta dos Macacos A Guerra 7

Pelo Coronel, só sentimos asco, até porque sua vilania beira limites desumanos, até o momento em que Harrelson transpira humanidade e faz dele uma espécie de Kurtz, o oficial vivido por Marlon Brando em Apocalypse Now (1979). O cenário é parecido. A patologia também. Visualmente, contudo, o desenho de mundo é menos épico e mais intimista, mais sombrio, graças à fotografia opaca buscada pelo neozelandês Michael Seresin (cameraman de O Expresso da Meia-Noite). É ele quem fotografa cenas de batalha com o napalm da adrenalina e da loucura, traduzida ora nos olhos de revanche de César, ora no nariz fungante de Harrelson, a transpirar seu instinto de morte. Faliu a fé na prosperidade humana. O altruísmo aqui só cabe nos ditos bichos. E mesmo quando a intriga central do roteiro se mostra na inteireza – trata-se de uma história de vingança, uma vez que César resolve dar o troco depois que o Coronel mata a mulher e filho do macaco –, os supostos animais não ultrapassam os limites da alteridade e mantêm o respeito pela vida alheia.

Andy Serkis encarna César, dando a ele um perfil vingador

Andy Serkis encarna César (sob muito CGI), dando a ele um perfil vingador

Neste National Geographic  de tônus derrotista, Reeves chega à sua maturidade como realizador, dispensando subtramas e secando a carga heróica da franquia, em prol de uma narrativa mais filosófica. E Harrelson… este entra aqui em estado de graça. Aos 56 anos, o ator texano abriu o ano arrebatando Sundance na versão carne e osso da graphic novel Wilson. Agora, ele pode disputar o Oscar por dois trabalhos (como principal em LBJ, no qual vive o ex-presidente Lyndon Johnson; e como coadjuvante em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri). Se não bastasse, ele ainda vai ser o mentor do piloto da Millenium Falcon em Han Solo, de seu amigo Ron Howard. Quer mais o quê? A celebração em torno de Planeta dos Macacos: A Guerra deve muito a ele.      

Cria do seriado Cheers, revelado para o estrelato em 1985, Woodrow Tracy Harrelson estampou a capa da The Hollywood Reporter, no finzinho de julho de 2017, com muito a celebrar: a vitória sob seu alcoolismo, a série de filmes autorais de prestígio para os quais foi convidado e a unânime ovação da crítica à aventura de tintas sci-fi Planeta dos Macacos: A Guerra. O destaque em boa safra das resenhas é o desempenho dele nessa produção de US$ 150 milhões, rodada em locações florestais no Canadá, sob a direção de Matt Reeves (o mesmo de Cloverfield: Monstro), trazendo a personificação plena do símio César e seus irmãos primatas. A forma humana aqui é vilã, sobretudo a figura despótica do Coronel, o personagem de Harrelson neste terceiro tomo da fase mais recente de uma franquia de nove longas-metragens, iniciada em 1968. Há ódio em cada quadro em que o ator parece, em meio a um elenco pouco ou quase nada conhecido, no qual é o único rosto estelar. E, apesar do esforço hercúleo de Andy Serkis para ampliar a paleta de emoções de César, é só no astro de  cults como Assassinos por Natureza (1994) que conseguimos prestar atenção. Até porque a curva trágica que guia todos os acontecimentos se desenha em torno dele.

 

Com uma arrecadação global estimada em US$ 230 milhões, War For The Planet of the Apes é o exemplar menos tecnológico da porção anos 2000 da série inspirada por um livro de 1963, o interespecífico Le Planette des Singes. Sua prosa é assinada pelo francês Pierre Boulle, também autor do romance do qual David Lean extraiu o clássico A Ponte do Rio Kwai. Adaptado para o cinema em 68, o livro simiesco de Boulle foi o pontapé inicial de todo o ecossistema em pane no qual o macaco César, dotado de linguagens humanas e mais uma série de dotes típicos dos bípedes capitalistas, lidera uma horda de gorilas, micos, babuínos e afins. E muitos deles sabem atirar como ninguém com uma AR-15 na mão. Nos filmes anteriores, ambos sucessos, de 2011 e de 2014 (este também de Reeves) havia um parque high-tech maior no embate entre a raça humana e os animais que ganharam o dom de explicitar sua consciência. E entre eles, há uma praga que adoece os Homens, tirando-lhe a coordenação motora. Mas aqui, neste radicalíssimo exercício de niilismo diante da intolerância nossa de cada dia, o ambiente do progresso industrial dá lugar a uma luta quase medieval. E, nela, nosso coração bate por César e seus ideais de preservação.

 

Pelo Coronel, só sentimos asco, até porque sua vilania beira limites desumanos, até o momento em que Harrelson transpira humanidade e faz dele uma espécie de Kurtz, o oficial vivido por Marlon Brando em Apocalypse Now (1979). O cenário é parecido. A patologia também. Visualmente, contudo, o desenho de mundo é menos épico e mais intimista, mais sombrio, graças à fotografia opaca buscada pelo neozelandês Michael Seresin (cameraman de O Expresso da Meia-Noite). É ele quem fotografa cenas de batalha com o napalm da adrenalina e da loucura, traduzida ora nos olhos de revanche de César, ora no nariz fungante de Harrelson, a transpirar seu instinto de morte. Faliu a fé na prosperidade humana. O altruísmo aqui só cabe nos ditos bichos. E mesmo quando a intriga central do roteiro se mostra na inteireza – trata-se de uma história de vingança, uma vez que César resolve dar o troco depois que o Coronel mata a mulher e filho do macaco –, os supostos animais não ultrapassam os limites da alteridade e mantêm o respeito pela vida alheia.

 

Neste National Geographic  de tônus derrotista, Reeves chega à sua maturidade como realizador, dispensando subtramas e secando a carga heróica da franquia, em prol de uma narrativa mais filosófica. E Harrelson… este entra aqui em estado de graça. Aos 56 anos, o ator texano abriu o ano arrebatando Sundance na versão carne e osso da graphic novel Wilson. Agora, ele pode disputar o Oscar por dois trabalhos (como principal em LBJ, no qual vive o ex-presidente Lyndon Johnson; e como coadjuvante em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri). Se não bastasse, ele ainda vai ser o mentor do piloto da Millenium Falcon em Han Solo, de seu amigo Ron Howard. Quer mais o quê? A celebração em torno de Planeta dos Macacos: A Guerra deve muito a ele.      

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5