O poderoso chefinho

'Cidade de Deus' de Nápoles, 'Piranhas' pode sair com um Urso de Prata do Festival de Berlim em seu redesenho juvenil dos códigos da máfia nas telas

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14 de fevereiro de 2019

La Paranza Dei Bambini Piranhas

Rodrigo Fonseca
Só falta um filme para terminar a seleção de 16 competidores no páreo pelo Urso de Ouro de 2019: na manhã desta quinta, será projetado o último, vindo da China, sob a lavra do diretor Wang Xiaoshuai. “So long, my son” (“Di Jiu Tian Chang”) é um retrato da sociedade chinesa a partir de um casal que aprende a domar o luto pela perda de um filho. A Macedônia segue imbatível como favorita, por “God exists, Her name is Petrunya”, de Teona Strugar Mitevska, seguida de perto por “Mr. Jones”, da polonesa Agnieszka Holland, que é careta, mas simbólico, ao rever a opressão de Stalin sobre os ucranianos na URSS. Mas pintou uma joia da Itália: “Piranhas”. Pátria de Fellini, Antonioni, Visconti, Pasolini, Monicelli e tantos outros gênios, o cinema italiano, cansado da fama de decadente que amarga há uma década, começa a ver uma nova geração de diretores alcançar projeção internacional aos olhos da crítica e ao gosto do público pagante. Batizada informalmente de Risorgimento, essa onda autoral que invade as Roma, Sicília, Nápoles e afins, arrebanhando espectadores e papando prêmios em festivais como Cannes e Veneza, é movida pela narrativa nada convencional de realizadores na faixa dos 40 anos, como Matteo Garrone (“Dogman”), Emanuele Crialese (“Terraferma”), Saverio Costanzo (“A Solidão dos Números Primos”), Luca Guadagnino (“Um Sonho de Amor”) e, em especial, Paolo Sorrentino (“A Grande Beleza”), que é o expoente da turma, apesar do fracasso de seu “Silvio e os outros” (“Loro”). Talvez, seja melhor dizer Sorrentino “era” a sensação, agora que Claudio Giovannesi pôs a Berlinale no bolso. Seu filme é um “Cidade de Deus” à napolitana.

Romano de 40 anos, o diretor fez antes “Wolf” (2013) e “Fiore” (2018). Fala-se de Urso de Prata, na forma de um prêmio especial de júri, ou até de um troféu coletivo para seus (não) atores mirins, todas as vezes em que este espetáculo etnográfico e sociológico é comentado. Trata-se de um rasante na dinâmica da máfia napolitana, escrita por Roberto Saviano, escritor jurado de morte pela Camorra responsável pelo marco histórico “Gomorra” (2008). Ele aqui acompanha a jornada de perda de inocência de um grupo de jovens seduzidos pela criminalidade, tendo como líder Nicola (Francesco Di Napoli, em atuação arrepiante). Espera-se apenas que Giovannesi não seja esquecido pelo júri presidido por Juliette Binoche, como aconteceu ano passado com “Minha filha”, de Laura Bispuri. Seu filme leva ação e geopolítica às plateias, redesenhando códigos mafiosos para além dos arquétipos hollywoodianos dados por Coppola e Scorsese.

São apenas meninos, a perderem sua mirada inocente. Mas tiros não respeitam inocência. E a fotografia de Daniele Ciprì torna aquele mundo de periferia paupérrimo um microcosmos com cheiro de morte no ar.

Do Brasil, ouve-se muito (bem) do documentário de Eliza Capai: “Espero a tua (re)volta”. Na mostra Geração 14+, seção ligada à representação da juventude, o filme foi ovacionado em sua projeção pública, conquistando um ardoroso boca a boca nos papos de corredor, com imagens de passeatas de estudantes, da ocupação de escolas, do congresso da UNE de 2017, entre outras. Eliza concorre ao Glashütte Original, prêmio da Berlinale dedicado a narrativas documentais. No filme, três jovens ex-secundaristas que participaram das ocupações das escolas paulistas em 2015: Lucas “Koka”, Marcela Jesus e Nayara Souza revisitam a história recente do país. Eles relembram os eventos de 2013, até chegarem ao processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e à vitória do candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro em 2018. O trio propõe diferentes olhares e vivências, mas têm em comum o ativismo por um ensino público de qualidade.