O Problema de Nascer

“A mamãe nunca deixaria, mas ela não precisa saber de tudo”

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03 de novembro de 2020

AVISO: ESTA CRÍTICA PODE CONTER SPOILERS SOBRE A TRAMA.

O Problema de Nascer, longa-metragem austríaco/alemão dirigido por Sandra Wollnere exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste ano – excepcionalmente online em virtude da pandemia – pode à primeira vista parecer uma fábula sci-fi, mas vai muito além. Situado em uma espécie de “futuro distópico” o longa narra a história de Elli, um androide interpretado pela atriz estreante Lena Watson. Inicialmente,Elli “vive” em um ambiente isolado com Georg(Dominik Warta), um homem a quem chama de pai e por quem nutre uma estranha idealização. Programada para assumir as lembranças e a personalidade de seres humanos conforme vai sendo ensinada por seus donos, aos poucos entendemos que na realidade o androide assumiu o lugar da filha da personagem de Warta, ausente da vida do mesmo, assim como uma figura materna nolocal.

Mas aos poucos o espectador vai se familiarizando com a rotina vivida por ambos naquele cenário idílico e tomando ciência dos segredos e peculiaridades desta relação; o que em um primeiro momento parece algo inocente ganha outro contorno. Limites são tensionados e, assim como sua versão original e humana, levam Elli a fugir daquele local ao seguir um estranho som, sendo então encontrada por Toni (Simon Hatzl) e levada para a casa da senhora Schikowa (Ingrid Burkhard).

Nesta segunda parte do longa o androide assumirá a identidade de Emil, falecido irmão da dona da casa. Mais uma vez lhe são ensinadas memórias, histórias e traços de personalidade, tudo através da perspectiva de sua nova dona. Porém, mesmo com novas configurações e ensinamentos, Emil é incapaz de esquecer as memórias de sua “vida” anterior, o que acabará por resultar em uma série de conflitos em sua nova casa, além de um final surpreendente.

Sandra Wollner abusa com maestria do uso de metalinguagem e enquadramentos ao apresentar a densa narrativa, colocando em cena dualidades, como o aquário e a piscina trazendo a água como um elemento aprisionador na primeira metade do filme, ou a ironia da frase “natureisthe future” (“a natureza é o futuro” em tradução livre) que estampa o casaco usado por Elli – um androide – ao fugir de sua “casa-prisão”.

O Problema de Nascer aborda temas complexos como incesto, o abuso infantil, a apropriação de corpos indefesos e inocentes, abandono e solidão de maneira sutil, o que torna o impacto ainda mais forte para o espectador. Mostra também a incapacidade do ser humano em ensinar à máquina algo simples e que talvez lhe falte bastante: empatia. A falta dela é, inclusive, um fator determinante para os inesperados acontecimentos finais. A sensação de estranhamento ao término da sessão é inevitável, típica das obras que por muito ficam na mente de quem as assiste. Um dos pontos altos do catálogo da Mostra, sem dúvidas.