‘O Processo’: tchau, querida!

Custeado pela World Cinema Fund, do Festival de Berlim, documentário entra em cartaz no dia 17 de maio.

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16 de abril de 2018

Poster_O Processo

“O Processo” (exibido no último Festival de Berlim) faz um recorte de um importante período de nossa recente História retratando o processo que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 31 de agosto de 2016. Sem fazer entrevistas ou intervir nos acontecimentos, o filme registra coletivas, votações na Câmara dos Deputados e no Senado e testemunha os bastidores nunca mostrados em noticiários.

Mas como ser imparcial em um filme que se preocupa em defender um dos maiores desastres políticos dos últimos 500 anos? A caótica saga política de Dilma é revisada neste documentário da competente Maria Augusta Ramos (dos premiados “Futuro Junho”, “Seca”, “Juízo”, “Morro dos Prazeres”, “Justiça” e “Desi”), que, desta vez, se rendeu a paixão deixando de lado a imparcialidade primária (instrumento muito necessário na construção de documentários). O cineasta norte-americano Michael Moore, um apaixonado populista de esquerda, já foi desacreditado por manipular e editar situações que provocam o deboche e o riso. Aqui acontece a mesma coisa. Dona de uma linguagem seca e racional, Maria Augusta se encanta com o farto material colhido e faz uma ação panfletária e explicitamente tendenciosa, controlando e direcionando o seu desenvolvimento. O propósito é claro e faz parte do discurso apaixonado de uma militante inconformada com os rumos da política brasileira. Há uma onipotência imagética repleta de ironias nada dramáticas que compara o impeachment com o Processo de Kafka (onde um homem é acusado por um crime não especificado) e uma preocupação em mostrar o desequilíbrio das partes envolvidas.

Com mais de duas horas de projeção (137 minutos) o documentário se concentra na resistência de um grupo liderado pelos senadores Gleisi Hoffman e Lindbergh Farias, comparados a cavaleiros da justiça sofrendo constantes ataques raivosos e humilhantes de uma bancada traidora. Gleisi é a verdadeira estrela do filme, sempre compenetrada e centrada na defesa de seu partido, enquanto Lindberg é um coadjuvante indignado e exposto à ira dos congressistas. Dilma aparece pouco e quando aparece nada tem a ver com a arrogante presidente que insistia na recriação da CPMF enquanto invocava a mandioca, a mulher-sapiens e filosofava sobre o estoque do vento.

Maria Augusta comete o erro número um da linguagem documental e adota um único partido como plataforma e apesar de alguns políticos serem bem conhecidos, o filme não os apresenta claramente, supondo que todos os espectadores tenham noção do que representam.

Sua visão não reflete a realidade geral histórica preferindo omitir posições e declarações em detrimento aos discursos espalhafatosos da jurista Janaína Paschoal e trechos editados de áudios do congressista Romero Jucá. A plateia, num acesso de mão única, encurrala-se num olhar irônico e é levada a crer que Dilma foi uma indefesa senhora traída pela política machista autoritária.

Concentrando quase toda a ação dentro dos gabinetes e corredores do Planalto, “O Processo” consegue arranhar uma breve e saudável discussão ao sair do claustrofóbico cenário e mostrar a decadente cidade de Brasília, onde cidadãos alheios aos trâmites dos podres poderes esperam um ônibus tendo ao fundo o Palácio da Alvorada.

“O Processo” é um registro do coletivo de uma desgraça onde os fatos atuais são maiores que as imagens coletadas, transformando-se em um libelo de uma saga política catastrófica. No fundo, Maria Augusta nos mostra que pouco importa para o mundo que a História seja mal contada, contanto que a manutenção do poder esteja acima das reais necessidades do povo brasileiro. Tchau, querida!

 

Leia também:

Berlinale 2018: ‘O Processo’ revê as contradições do impeachment de Dilma – por Rodrigo Fonseca.

Avaliação Zeca Seabra

Nota 3