O Quarto de Jack

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18 de fevereiro de 2016

Lenny Abrahamson, diretor que ousou ao ocultar as feições de Michael Fassbender com um disfarce pra lá de excêntrico no longa “Frank” (2014), mais uma vez eleva a criatividade ao contar, sob uma ótica incomum, a poderosa relação de afeto entre mãe e filho. “O Quarto de Jack”, com roteiro adaptado do livro “Quarto”, de Emma Donoghue, parte de uma perspectiva interessante, de um mundo literalmente particular, para dissecar a interação entre Joy (Brie Larson) e Jack (Jacob Tremblay). Isolados de tudo e de todos, os dois são mantidos trancafiados em um cubículo com escassos recursos, apenas os necessários para manter a sobrevivência. A dupla vive ali, dia e noite, impossibilitada de abrir a porta. A grande jogada de Abrahamson está mesmo na forma, repleta de carinho, como ele decide contar uma história de amor materno que só existe em decorrência dos traumas de um sequestro. Joy é mantida em cativeiro por anos e Jack é uma feliz consequência do abuso de seu algoz, crueldades amenizadas pelos pequenos prazeres do convívio no limitadíssimo espaço do quarto.

Jack tem cinco anos de idade e conhece apenas as ínfimas ofertas do quarto, um fato que é terreno fértil para boas reflexões acerca da percepção humana de mundo. Joy deu à luz dentro do cômodo e sua cria desenvolveu-se em seu interior. O máximo de luz natural que ele conhece é o pouco que passa através de uma clarabóia. Como a televisão, que reflete imagens de uma realidade para ele alienígena, a claraboia também exibe mistérios transformados em matéria para fantasias. A sempre temida visita de Old Nick (Sean Bridgers), o sequestrador, interrompe temporariamente a união entre mãe e filho. A aparição exige um protocolo de comportamento: Jack não deve ter contato com ele, por isso ele dorme, ou finge dormir, no armário fechado. Quando Old Nick desaparece, atravessando a porta lacrada por uma senha, a rotina de confinamento continua.

O início de “O Quarto de Jack” é marcado pelo aniversário de cinco anos do menino, uma forma de sublinhar a passagem do tempo, sempre implacável. Ciente da gravidade da situação e de que o filho não é mais um bebê indefeso, Joy muda a estratégia, pensando em um plano de fuga, e começa a introduzir no raciocínio de Jack a ideia de que existe uma imensidão lá fora, sem as limitações das paredes do quarto. Como é de se esperar, Jack refuta os argumentos da mãe, acreditando que o mundo resume-se a apenas ao que ele pode ver no quarto. Fora do cinema, muitos reagem dessa forma quando são confrontados com algo que abale a estrutura do seu universo particular. Joy dá à luz novamente a Jack quando o tira do quarto, após uma estratégia bem sucedida para burlar a prisão. Quando os dois ganham a liberdade, o cordão umbilical é enfim rompido. As reações ao contato com o lado externo, um ambiente do qual Joy esteve ausente e Jack desconhece completamente, são as mais diversas. Tanto físicas quanto psicológicas. A grande beleza de “O Quarto de Jack”, que vai ainda mais além da legitimidade da sintonia entre mãe e filho, está na valorização das descobertas da criança protagonista, em desempenho estupendo do ator mirim Jacob Tremblay. Com quatro indicações ao Oscar desse ano (Melhor Filme, Diretor, Atriz e Roteiro Adaptado), o “Quarto de Jack” é um sopro de frescor aos corriqueiros critérios da Academia, famigerados pela tendência em louvar o convencional.


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