O ranking do Festival do Rio 2018… até aqui

Na esteira do sucesso de 'Moonlight', o doído 'Se a Rua Beale falasse", o novo filme do diretor Barry Jenkins, é, até agora, o melhor longa-metragem entre as 200 pérolas do evento

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05 de novembro de 2018

Rodrigo Fonseca
Lista do que se viu de melhor no Festival do Rio 2018 até agora

Potencial concorrente ao Oscar 2019 (quiçá ganhador), Se a Rua Beale Falasse é o melhor filme do Festival do Rio até agora, confirmando a evolução da artesania de Barry Jenkins na direção de painéis sobre a exclusão ou a acomodação afetiva entre as populações negras pobres dos EUA. Consagrado com “Moonlight – Sob a luz do luar” (2016), em que fazia um panorama geracional, ele volta agora com um painel familiar de época, recriando a Nova York dos anos 1970 a partir da literatura de James Baldwin. Um casal formado por dois amigos de infância, Tish (a dostoievskiana Kiki Layne) e Fonny (Stephan James, ator de uma retidão magnética no olhar), enfrenta mazelas morais e financeiras, além do julgamento social, depois que ele é preso injustamente. O requinte da saturada fotografia de James Laxton potencializa imageticamente uma narrativa de explícita estrutura literária, dialogando com a carpintaria de Baldwin em sua narração. É a única fotografia entre os destaque da Oscar season capaz de fazer frente à de Alfonso Cuarón em “ROMA” – sobretudo nas tomadas que incorporam retratos em P&B de época. O desempenho da atriz Regina King como a mãe de Tish é irretocável. Tem mais sessão dele nesta segunda, às 19h, no Reserva Cultural, e nesta terça, às 16h20, no Estação NET Gávea.

Os demais achados:

Poster RBG Ruth Bader Ginsburg

A Queda do Império Americano, de Denys Arcand: O filme mais bem falado de todo o Festival. É a terceira parte de uma trilogia iniciada em 1986 pelo historiador e cineasta, com “O declínio do império americano”, complementada por “As invasões bárbaras”, Oscar de melhor filme estrangeiro de 2004. Neste conto moral sobre os efeitos do liberalismo, um intelectual que trabalha numa transportadora se apropria de duas malas com uma fortuna em dinheiro roubado;

Chacrinha – O Velho Guerreiro, de Andrucha Waddington: Stepan Nercessian tem uma atuação apoteótica nesta micareta de sentimentos, de veia tropicalista, sobre o herói da telecomunicação que estetizou o escracho;

 RBG: Hero, Icon, Dissenter, de Betsy West: Um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema documental do ano, este longa retrata a odisseia de lutas contra o sexismo da juíza Ruth Bader Ginsburg, hoje com 85 anos;

Raiva, de Sérgio Tréfaut: Editado pela montadora brasileira Karen Harley, esta trama de mistério de origem portuguesa (com DNA da França e do Brasil na engenharia de produção) usa o romance “Seara de vento”, de Manuel da Fonseca, para recriar o tom desesperançado do Alentejo dos anos 1950. Ali, uma série de assassinatos deflagra uma investigação que vai devassar vidas;

Jean-Pierre Bacri e Agnès Jaoui na comédia "Place publique" (aqui "Praça Pública")

Jean-Pierre Bacri e Agnès Jaoui na comédia “Place publique” (aqui “Praça Pública”)

Praça Pública, de Agnès Jaoui: Dona de um humor ferino em sua reflexão sobre miudezas afetivas do cotidiano, a realizadora de “O gosto dos outros” (2000) atomiza aqui a cultura da celebridade ao acompanhar a vexatória execução moral de um apresentador de TV (vivido pelo sempre genial Jean-Pierre Bacri).

A Quietude, de Pablo Trapero: Sexy até a medula, este melodrama à moda PelMex do cineasta argentino responsável por crônicas da violência urbana sul-americana, como “El Bonaerense – O outro lado da Lei” (2002) e “Abutres” (2010), põe Bérénice Bejo e Martina Gusman como irmãs assoladas pelos pecados do passado de seus pais com a ditadura militar. Fotografia de um esmero ímpar.