‘O Rastro’: Samara tupiniquim acerta em cheio neste híbrido de terror e denúncia sócio-política

Dirigido por J. C. Feyer, longa é protagonizado por Leandra Leal e Rafael Cardoso.

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23 de maio de 2017

Depois de onze anos após seu primeiro filme (o curta “Balada de duas mocinhas em Botafogo”, de 2006), o diretor João Caetano Feyer (mais conhecido por J. C.) conseguiu concluir seu primeiro longa-metragem apostando em um gênero considerado difícil para os padrões brasileiros. Híbrido de suspense, terror e denúncia sócio-política, “O Rastro” é livremente inspirado em clássicos como “O Iluminado” de Kubrick, “O Sexto Sentido” de Shyamalan e também nos filmes de horror orientais, com aparições repentinas de fantasmas acinzentados no melhor estilo Samara, só que em versão tupiniquim. Mas nada que tire o mérito desta obra que foge do padrão televisivo tão recorrente no cinema nacional.

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Na trama, João Rocha (Rafael Cardoso), um jovem e talentoso médico em ascensão, acaba encarregado de uma tarefa ingrata: supervisionar a transferência de pacientes quando um hospital público da cidade do Rio de Janeiro é fechado por falta de verba. Quando tudo parece correr dentro da normalidade, uma das pacientes, uma menina de 10 anos, desaparece no meio da noite sem deixar vestígios, levando-o para uma jornada num mundo obscuro e perigoso. Quanto mais João se aproxima da verdade, mais ele mergulha em um universo sobrenatural repleto de reviravoltas que nunca deveriam ser reveladas.

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Filmado em um hospital abandonado no Rio de Janeiro (mais precisamente a Beneficência Portuguesa no bairro da Glória), “O Rastro” levanta questões interessantes sobre o abandono da saúde pública em solo brasileiro e a ganância de políticos mal intencionados, tema muito atual e pertinente. Misturando realidade e ficção, Feyer explora o espaço cênico de maneira inteligente captando enquadramentos onde o hospital se transforma em um personagem real e ameaçador. A crescente tensão é bem desenvolvida, apenas com algumas ressalvas em relação aos exageros sonoros que estão ali apenas para produzir alguns sustos na platéia. Feyer também demonstra uma ótima capacidade na direção do elenco, que imprime veracidade sem apelar para estereótipos conhecidos. O roteiro, assinado por Beatriz Manella, acende uma fagulha de criatividade ao comparar a corrupção política como um monstro assustador que rouba não só a dignidade do cidadão, mas suas próprias entranhas.

“O Rastro” é uma obra muito bem vinda, uma espécie de oásis neste cenário aterrador onde as comédias dominam o mercado cinematográfico brasileiro.

 

“O Rastro”:

Brasil, 2017. 110 min.

Direção: J. C. Feyer.

Com: Rafael Cardoso, Leandra Leal, Cláudia Abreu, Jonas Bloch.

Avaliação Zeca Seabra

Nota 4