O Reflexo do Lago

Filme paraense exemplifica urgência atual com as queimadas na Amazônia e Pantanal

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14 de outubro de 2020

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Continuando a cobertura do 9º Olhar de Cinema, outro destaque sintonizado no engajamento contra o descaso público, desta vez sobre as queimadas na Amazônia, é “O Reflexo do Lago” de Fernando Segtowick, ainda inédito no Brasil, e que estreia online neste domingo no Olhar de Cinema. Lançado também na Berlinale (aqui e aqui) e depois em Cartagena, esta produção do Pará conseguiu criar arte dentro da denúncia a partir de alguns interessantes dispositivos documentais. A começar pela filmagem em preto e branco inspirada no livro de fotografias de Paula Sampaio, “O Lago do Esquecimento”, realçando os contornos, os volumes e a textura, de maneira a trazer à tona a essência da imagem.

Algo que podemos aludir às fotos P&B de Sebastião Salgado como no Kuwait em chamas, com bombeiros tentando apagar poços de petróleo incendiados pelas tropas de Saddam Hussein em 1991. De tal modo que, quando mostrada uma floresta, montanhas ou um lago, sem as cores, você não estará mais vendo um coletivo de tons, e sim um só corpo da natureza. E isso traz uma elegância no retrato de personagens que são tratados de forma mais visceral no quadro geral, com protagonismo bastante subjetivo (especialmente no baile final), e que vão virar reagentes a partir da inserção do próprio diretor a interagir com o elenco. Isso amplifica o diálogo com a realidade porque externaliza as tentativas de erro e acerto da própria equipe técnica em retratar seus conterrâneos, num curioso jogo de representação e representatividade (mesmo que às vezes soe um pouco performático ou ingênuo).

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Talvez empalideça apenas e justamente na parte da denúncia, já que é quase impossível acompanhar os absurdos e negligências acometidos pelo atual governo Bolsonaro e, assim, o filme já nasceria datado se a intenção fosse apenas esta (apesar de fazer uma boa antologia um pouco didática da situação de lá desde Getúlio Vargas, passando por Ernesto Geisel, até chegar no agora). Porém, mais vale a urgência do assunto e justamente a tentativa de imersão neste lago, que hoje pede socorro diante das queimadas, do que se o cinema se isentasse a não procurasse fazer nada em seu importante papel como crítico de um reflexo da sociedade.