O Regresso

'Coralidade' na desfragmentação do corpo e da carne em busca da alma

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06 de fevereiro de 2016

Curioso que estreiem na mesma semana em circuito dois trabalhos cinematográficos tão intensos em se expressar de forma visualmente ímpar. Cada qual a seu modo. Um, o grande vencedor de quase todas as premiações de filme estrangeiro até agora, o húngaro “Filho de Saul” de László Nemes, com a câmera sobre os ombros de seu protagonista em meio ao campo de concentração da 2ªGM, colocando o espectador bem próximo de um lugar já visto muitas vezes no cinema, porém nunca sentido tão de perto. E o outro filme a estrear, “O Regresso”, de Alejandro Gonzalez Iñárritu, vem finalmente dando todos os prêmios de melhor ator a Leonardo DiCaprio. Mas se o forte estivesse apenas na interpretação, esse texto não estaria ressaltando tão espetacularmente seu conteúdo imagético. Como teria esta obra enfim dado o empurrãozinho que DiCaprio mais do que merecia?

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O cineasta mexicano Iñárritu, ganhador do Oscar de direção em 2015 por “Birdman”, consolidou uma filmografia com personalidade, cheia de elementos próprios, como o formato de filme ‘coral’, a descentralização de protagonismo com vários personagens centrais, e o amadurecimento apenas através da dor, como em “Amores Brutos”, “21 Gramas” e “Babel”. E, assim como em “Birdman” apenas pareceu se distanciar destas características, abandonando superficialmente o formato ‘coral’ e adotando um único protagonista, quando na verdade era a mente deste que estava fragmentada nos inúmeros coadjuvantes que lhe orbitavam, agora a ‘coralidade’ está na desfragmentação do corpo, da carne, da natureza, para se tentar chegar na alma.

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A começar pelo nome do personagem central de DiCaprio, um explorador chamado Hugh Glass, cujo sobrenome em português quer dizer ‘vidro’, ou seja, passível de ser quebrado e juntar os cacos. Adaptado do romance de Michael Punke, que por si foi inspirado em fatos reais, o roteiro do próprio diretor junto com Mark L. Smith possui duas sinopses, em dois espaços temporais que se interligam em uma narrativa clássica: presente e passado, um corpóreo e outro espiritual. Em 1823, um grupo de militares e comerciantes de peles é guiado por Glass durante o desbravamento do Velho Oeste nos EUA, acossados pela gelada natureza e pelos índios nativos. Em outro momento, o espírito da terra se completa mostrando que Glass, apesar de descendente de europeu, vivia em família com os índios até serem dizimados. Todavia, a própria natureza está para lhe pregar peças e corrigir a falta de sintonia em suas raízes, quando será deixado para trás às portas da morte e sedento por vingança…

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Por falar em raízes, eis que a enorme presença da vasta e imponente natureza de animais, montanhas e árvores incólumes começa sua grande pintura, num mosaico quadro a quadro da câmera, nunca repetindo cores ou tons que só evoluem. Não apenas pela fotografia estonteante de Emmanuel Lubezki, parceiro habitual de Iñárritu bem como do igualmente notável diretor Terrence Malick, porém na própria metaforização do corpo e espírito partidos de Glass através de como o cineasta captura a narrativa. A câmera cirurgicamente abandona os personagens para acompanhar os ‘motifs’ das cenas, absolutamente nunca estando parada, e sempre fiel às sensações de planos-sequências acachapantes, não obstante trair o personagem “em cena”. Nisto o poderoso conjunto de forças de Iñárritu e Lubezki consegue se sobressair a seus trabalhos anteriores, usando a magnificência da natureza em trezentos e sessenta graus como protagonista, sempre em consonância com o personagem de DiCaprio. Como se demonstra na já antológica batalha inicial, onde movimentos giratórios seguem sempre a violência, de personagem a personagem que entra e sai do enquadramento. Violência é outra palavra chave para entender a natureza do filme, característica inerente que não pode ser traída, inobstante qual sua fundamentação, contraposta no suposto antagonismo da vingança personificada pelo personagem visceral de Tom Hardy. Este prova não ser tão diferente ou mais perigoso do que um animal acuado lutando por sobrevivência, vide a importância filosófica da sequência desde já polêmica com a ursa protegendo seus filhotes.

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Dor que gera catarse curativa. Uma constante do mundo. Uma força maior. Todo parto é doloroso, assim como o novo ser que emergirá de Glass. Eis que a força da imagem encontra a da interpretação em DiCaprio, não apenas pelas árduas locações nevadas, como pelos inúmeros desafios ao ator, como boa parte do filme gravemente ferido, amarrado e sem voz, tendo de passar emoções nas mínimas expressões, no encontro com a terra nos olhos, boca e nariz, no sangue e respiração baforejados diretamente na câmera rente aos acontecimentos. O ciclo de vida inclui a morte. Então é bom alertar ao espectador a boa parte de sofrimentos infligidos na trama, para que se possa igualmente ao personagem transcender a materialidade e se entregar ao mesmo poder divino que a cultura indígena exerce sobre Glass, a câmera de Iñárritu exerce sobre o ator e a tela do cinema sobre a plateia. A perfeita captura do fascínio que é a 7ª arte.

De preferência em Imax.


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