O Rosto (42° Mostra de SP)

Qual a fronteira delimitadora de nossa identidade?

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24 de outubro de 2018

Um dos destaques da 42° Mostra de São Paulo é o filme ganhador do Prêmio do Júri no Festival de Berlim 2018: “O Rosto” (ou “Mug” em seu título internacional e “Twarz” no original) da diretora polonesa Malgorzata Szumowska — cujo filme anterior “Body” também fez sucesso há alguns anos, tanto em Berlim, ganhando melhor direção para Malgorzata, quanto na Mostra sendo um dos filmes mais procurados.

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Inspirado em fatos reais, usa como premissa a primeira cirurgia de transplante de rosto na Europa, ampliando as questões e pesquisas da diretora que já havia estudado a alma e a fé através do corpo com “Body” e agora a face e suas expressões de identidade com “O Rosto”. Melhor não revelar mais nada do roteiro para não estragar nenhuma surpresa, já que o próprio título e sua inspiração já são até um pouco de informação demais, na opinião deste crítico.

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O fato de lidar com a identidade tanto individual quanto social de uma pessoa e de partir do pressuposto de que um item tão na superfície quanto o rosto perante a enorme colagem de fatores que compõem quem nós somos, e que é o bastante para desagregar e perturbar tanto o nosso entorno, tornam este filme um intrigante exercício antropológico. Mas não tenha pressa, não se resume apenas a uma experiência fria e racional sobre a condição humana, pois o filme tem sua própria leveza particular e uma boa dose de humor — ridicularizando a instituições de opressão, como a política, a mídia e a igreja de uma cidade pequena. Além disso, ancora a história a princípio na relação familiar e num romance, duas espinhas dorsais eternas na cartilha cinematográfica, o que ajudará a conduzir o espectador numa imersão retributiva.

Filme divertido e às vezes emocionante (principalmente uma cena catártica perto do final com direito à música tema e uma dancinha que vai fazer muita gente chorar — admito que chorei também). Além de ser bem filmado, com um pensamento bastante elaborado para a imagem que traduza a forma de contar essa história, brincando com o foco e o close para dizer o que perde a nitidez no olhar de terceiros apenas porque não conseguem mais enxergar o que querem. Nisto, vale ressaltar também a trilha sonora e as músicas de rock’ n’ roll que acompanham tematicamente o protagonista vivido com esmero por Mateusz Kościukiewicz, um outsider de espírito livre que não se encaixa na sociedade careta que faz questão de que se sinta deslocado mesmo antes da reviravolta do filme. E olha que é uma grande responsabilidade para o ator interpretar o antes e depois desse momento de virada de sua vida, aimda mais porque o dispositivo utilizado poderia facilmente retirar a empatia gerada no início para com o público (bem como também interfere na relação de seu personagem com o restante do elenco), mas o ator consegue superar essa limitação e cria novas ligações corporais para ganhar novas significações, dentro e fora da tela.

Porém…, talvez o desenvolvimento pudesse ser mais complexificado ao invés de transformar todas as camadas num peneira em apenas um foco para retomar a história do romance com que o filme começa, e com a qual a obra não é tão grande quanto suas outras partes. Ainda assim, ganhou o Grande Prêmio do Júri na Berlinale.

PS. Tem homenagem ao nosso Cristo Redentor brasileiríssimo no filme “O Rosto”. A diretora adora o nosso país, pois sempre insere referências a nós brasileiros, como no seu filme anterior Body que também nos referenciava através do espiritismo e Chico Xavier.

Confira crítica em vídeo para “O Rosto” direto de Berlim pelo almanaquista Filippo Pitanga:
https://www.youtube.com/watch?v=514V8EnamMM

E trecho da coletiva:
https://www.youtube.com/watch?v=wu-0Tw7bdVQ

Crítica para “Body”, o filme anterior da diretora:

http://almanaquevirtual.com.br/body/