O Segredo das Águas

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15 de janeiro de 2015

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O filme da japonesa Naomi Kawase inicia-se com uma belíssima tomada na praia, onde vemos por alguns longos minutos o vai e vem do mar. Essa vicissitude das águas trás um corpo, um corpo morto, que é encontrado por Kaito (Nijiro Murakami). Com isso, já percebemos desde o início que a película trata de elementos dicotômicos naturalísticos que embebem a nossa concepção cotidiana de vida nos trazendo uma reflexão interessante: a morte como um fim em si mesmo ou a morte como um momento de reconstrução e reestruturação? E porque não ambas as assertivas misturadas? Apesar do cenário se passar em uma ilhota japonesa interiorana (Amami-Oshima), podemos facilmente transpor as angustias vivenciadas pelos dois personagens principais, o casal de namoradinhos Kaito e Kyoko (Jun Yoshinaga) para qualquer época e qualquer nacionalidade, mesmo havendo a diferença cultural entre ocidente e oriente. Afinal, “O segredo das águas” (“Futatsume no mado”, no original) trata de temas universais como a descoberta do primeiro amor, medo, liberdade, sincretismo, morte, renascimento e reconstrução.

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Kaito tem que lidar com a perda do pai que advém de uma forma institucionalizada, o divórcio, e Kyoko com a perda da mãe que está prestes a morrer devido a uma enfermidade. Ambos lidam de forma radicalmente distinta com a ausência/morte. O primeiro tem bastante dificuldade de entender o porquê de não estar com seu pai, já a menina, apesar da tristeza, lida bem com o fato de sua mãe em breve ter que perder a vida. Essa aparente facilidade se dá ao fato da mãe de Kyoko ser uma xamã daquela comunidade e com isso a morte é encarada de forma lírica e transcendental. Apesar dos diálogos belíssimos em que a mãe-Xamã Isa (Miyuki Matsuda) conforta Kyoko para o fim que se aproxima, temos no pai da menina o elemento mais soberbo e catalisador das emoções daquela família que em breve perderá o ente que é o elo de ligação não só entre eles, mas também entre eles e seu lado espiritual, além de toda uma comunidade. Comparando a vida a uma onda ele diz ao jovem casal angustiado que “as ondas consomem todo tipo de coisa. É algo incrível. Quando surfamos, temos que lidar com o último estágio de uma onda que se originou longe da costa. Aos unir-nos a esta onda, por seu último instante, ela carrega uma energia incrivelmente poderosa. Então, quando você sente essa força, com todo o seu corpo, por um momento ele se transforma em nada. Nada, ou vazio. De qualquer forma, há a sensação de que tudo, incluindo nós mesmos, permanecemos totalmente serenos. A onda chamada Isa era, pra mim, na minha vida, a melhor onda de todos os tempos”.

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Em contrapartida, Kaito vive em uma Ilha e tem medo do mar, portanto, ironicamente, não sabe nadar. As metalinguagens que envolvem os dramas pessoais/familiares com as ondas do mar são estonteantes e nos fazem imergir na trama assim como no lindo mergulho que é espelhado no cartaz do filme. Ao aprender a nadar, Kaito redescobre em si mesmo, as suas potencialidades enquanto ser humano, deixando para trás as amarguras que a vida vai lhe imprimindo. Não se despe apenas das roupas, mas também de todos os sentimentos que pretende esquecer ou superar.

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Em um momento ímpar da cinematografia contemporânea temos dois filmes bastante ousados e semelhantes em termos de cenário, plano de fundo e construção narrativa, que de alguma forma dialogam entre si, mesmo tendo sido concebidos praticamente ao mesmo tempo. São eles, o japonês aqui em questão e o brasileiro “Ventos de Agosto” (2014, de Gabriel Mascaro). Nestes dois trabalhos vemos personagens que não vivem nos grandes centros urbanos e que permeados pelo tema da morte/velhice/transformação agregados pelos elementos da natureza mar/ventos buscam refletir acerca da sua própria existência e, por conseguinte, sobre as transformações da vida, seja através de cabras, cocos ou cadáveres. Em ambos vemos o processo de descoberta que é inerente à condição humana com mais questionamentos que respostas, numa experiência contemplativa esfuziante. Com uma câmera na mão e uma curiosidade antropológica Kawase e Mascaro transformam seus olhares em uma introspecção autobiográfica harmônica e obstinada.

Avaliação Samantha Brasil

Nota 5