O Sono da Morte

A metamorfose da borboleta como metáfora de transformação

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01 de setembro de 2016

O sonho sempre foi algo misterioso para o homem. Alguns estudiosos afirmam que sonhamos todas as noites, mas só lembramos dos sonos interrompidos ou que provocam grande emoção. O ambiente lúdico dos sonhos pode funcionar como uma grande caixa de areia que pode ser moldada e usada em praticamente todo gênero cinematográfico. Até pelos sonhos serem, em última instância, similares à própria estrutura do cinema.

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“O Sono da Morte”é mais um filme a utilizar os sonhos como temática para contar sua história. Nele, o casal Jessie (Kate Bosworth) e Mark (Thomas Jane) adotam uma criança chamada Cody (Jacob Tremblay) após a morte de seu filho Sean. Após um tempo, o casal descobre que os sonhos de Cody tornam-se realidade, podendo trazer experiências lúdicas ao casal no caso de sonhos agradáveis; ou experiências mortais, no caso de pesadelos.

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Dirigido por Mike Flanagan, que tem, além desse filme, outros dois títulos de terror previstos para esse ano (“Hush”e “Ouija 2”) o filme trás algumas boas ideias mas acaba desperdiçando seu potencial ao não aprofundar-se em nenhuma delas. Um exemplo desse desperdício de oportunidade é no uso das alegorias. As aparições e fixação dos personagens por borboletas é muito bem trabalhada e carregada de simbologia, já que elas podem representar uma metáfora da transformação. Entretanto, essa é praticamente a única metáfora onírica usada no filme inteiro (existe mais uma mais previsível no final). Para um filme que explora os sonhos é muito pouco.

Kate Bosworth stars in Relativity Media's "Before I Wake". Photo: Courtesy of Relativity Media Copyright: © 2014 QNO, LLC

Kate Bosworth stars in Relativity Media’s “Before I Wake”.
Photo: Courtesy of Relativity Media
Copyright: © 2014 QNO, LLC

O filme prefere apostar em uma fotografia sempre escura, apontando para o estado depressivo em que encontra-se o casal principal. Os enquadramentos são sempre fechados, o que ajuda a criar um clima de sufocamento e valoriza as atuações do competente elenco principal – o ator mirim Jacob Tremblay repete a boa atuação de seu último filme “O Quarto de Jack” como uma criança introspectiva que vive uma situação traumatizante.

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Entretanto, algumas vezes o filme desperdiça a construção desse clima claustrofóbico com cenas fora da casa. Toda a cena que ocorre na escola de Cody envolve uma trama paralela que é completamente desnecessária. Além disso o filme comete deslises em pequenos detalhes, como nas cenas de terapia de grupo realizadas por Jessie. Se nenhum dos outros personagens da terapia tem importância dramática ou importância na história não deveriam estar presentes. Aumentar a quantidade de pessoas em cena desnecessariamente diminui o foco nos diálogos dramáticos – apesar dos enquadramentos serem sempre fechados para tentar corrigir.

O filme gasta um tempo muito maior que o comum apresentando os dramas dos personagens – embora o longo tempo de tela não se reverta em profundidade dramática. O filme acaba tornando-se mais uma história sobre superação do luto do que um filme de terror. Próximo do clímax, o filme abandona tudo que havia construído e transforma-se em um típico filme de terror contemporâneo, ao langar o suspense e abraçar as cenas de sustos. A sensação final é que desperdiçaram uma boa ideia em um filme esquecível. Como são a maioria dos nossos sonhos.

Kate Bosworth and Thomas Jane star in Relativity Media's "Before I Wake". Photo: Courtesy of Relativity Media Copyright: © 2014 QNO, LLC

Kate Bosworth and Thomas Jane star in Relativity Media’s “Before I Wake”.
Photo: Courtesy of Relativity Media
Copyright: © 2014 QNO, LLC

O Sono da Morte  (Before I Wake)

EUA, 2016. 97 min.

De  Mike  Flanagan

Com Kate Bosworth, Thomas Jane,  Jacob Tremblay


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