O tecido fino de Marcelo Gomes veste a Berlinale de sinestesia

'Estou me guardando para quando o carnaval chegar' marca a volta do diretor de 'Joaquim' ao festival alemão com uma reflexão (de tons sensoriais) sobre o Tempo

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11 de fevereiro de 2019

Estou-me-Guardando-Para-Quando-o-Carnaval-Chegar-divulg_ Estou me guardando para quando o Canaval chegar

Rodrigo Fonseca
Berlim recebeu ontem uma aula de geografia dos afetos da sabedoria pernambucana. Dois anos depois de sua passagem pela seleção oficial de Berlim com o “Game of Thrones” brejeiro “Joaquim” (2017), Marcelo Gomes regressa às telas alemãs com um documentário sobre a capital brasileira da calça jeans em pleno Nordeste, Toritama. O filme se chama “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” e teve sua exibição dedicada ao cineasta Eduardo Coutinho, morto em 2004, no Rio. Não há nele a mecânica palavrosa dos filmes mais famosos de Coutinho, realizados a partir de “Santo forte” (1999), mas tem algo de “Moscou”, que o cultuado documentarista rodou em 2009, a partir da encenação de uma trupe teatral. Coutinho queria extrair linguagem (e, dela, sentido) de um processo. Gomes faz o mesmo, só que numa dinâmica à la Dziga Vertov, com foco na observação de ritos a partir de uma passagem curta de horas (ou dias, tanto faz) que sintetizem sensorialmente a rotina de Toritama. Sorrisos e gestos de preguiça contam, às vezes, mais do que palavras, com destaque para a sequência em que a câmera faz um corpo a corpo com a imagem de um pequeno empresário que confecciona cortes muito particulares de jeans, usando-se como modelo vivo de suas peças. Gomes consegue transformar o que parecia ser um filme sobre trabalho (e mais valia marxista) numa reflexão existencial – e carnal, numa lógica mais aristotélica do que platônica – acerca das estratégias nossas de apreensão e fruição do Tempo. Em Toritama, o povo não quer ter patrão. Quer ser senhor de sua matéria viva de trabalho. Mas a autonomia, que seria uma carta de alforria, pode virar uma outra forma de escravidão, no terreno da afetividade. Cada um que arque com a sua escolha, pois o bloco da sobrevivência está na rua.
Gomes se inclui como personagem no filme, como sujeito de contracampo, usando o fato de ter ido a Toritama quando menino, com seu pai. A memória serve de norte a esse regresso do diretor do eterno “Cinema, aspirinas e urubus” (2005) a uma região que hoje é diferente do idílio da recordação. Diferente porque viveu… viveu-se… prosperou-se entre máquinas e panos azuis, que caem da tela, em margem de corte, num gesto de sinestesia pura.

Ainda fala-se muito por aqui do mineiro “Querência”, de Helvécio Marins Jr., exibido na seção Fórum, devotado a trabalhos de timbre experimental, no primeiro dia do evento. A sessão estava abarrotada, com espectadores se acotovelando. Um dos mais importantes eventos da indústria do cinema mundial (ao lado de Cannes e de Veneza), a Berlinale foi levada por Helvécio a um mergulho naturalista no sertão de Minas Gerais, numa narrativa (ficcional, que parece documental) capaz de evocar o mítico diretor Humberto Mauro (1897-1983) e seu “Carro de bois” (1974). A mostra Fórum embarcou numa viagem afetiva, sensorial e mauriana para Unaí, a 590 km de Belo Horizonte. Foi lá que o cineasta (codiretor de “Girimunho”, com Clarissa Campolina) estruturou a narrativa de “Querência” como um poema audiovisual. Um poema que arrancou suspiros da plateia germânica com seu olhar sobre o universo rural brasileiro. A narrativa, de um naturalismo que observa (obediente) o fluxo de vidas aparentemente simples, segue os ritos cotidianos de um tratador de gado que dá nome aos animais que cuida, enquanto sonha com o universo dos rodeios. Entre orações, modas de violas e fatias de um queijo branco artesanal, ele encara a violência de invasões a propriedades no campo e o descaso de autoridades com a justiça da dita “roça”. A sequência em que o personagem se recorda de uma oração familiar de sua infância é pra levar o mais duro dos corações às lágrimas.