O Tesouro

O Neorrealismo do cinema romeno retrata o que ocorre à sua sociedade, num limiar entre o horror real e o lúdico abstrato, tal qual seu padroeiro Conde Vlad.

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26 de maio de 2016

O cinema romeno teve muito a contribuir nos últimos anos. Outrora, historicamente, a Romênia era mais conhecida por seu sanguinário príncipe do século XV, Vlad O Empalador, que bebia o sangue de suas vítimas e inspirou o famoso personagem fictício Conde Drácula. Quem diria que em pleno século XXI o vampiro mais famoso da história seria a metáfora perfeita para definir o conceito do cinema produzido em suas terras na atualidade. O Conde Vlad Tepes que de fato existiu tinha um pouco de horror psicológico fruto da realidade que o cercava, e empalava os inimigos nas fronteiras de suas terras como elemento de terror para que nenhum dos bárbaros estrangeiros invadisse a Romênia. Seu efeito psicológico foi tão poderoso que sobreviveu na fantasia muito depois que morreu, mesmo tendo a Romênia sido invadida por vários povos que lá incutiram mais de um credo, cristão e islâmico, capitalista ou comunista, segregando e vulnerabilizando um povo sem uma representatividade forte para defendê-los. No cenário contemporâneo, de desemprego e pobreza, o Neorrealismo do cinema romeno retrata o que ocorre à sua sociedade, num limiar entre o horror real e o lúdico abstrato, tal qual seu padroeiro Conde Vlad.

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Surgiram, então, renomados cineastas como Cristian Mungiu, Cristi Puiu, Radu Jude e Corneliu Porumboiu. E é deste último o recente “O Tesouro”. Cineasta notabilizado pelo ótimo “À Leste de Bucareste”, Corneliu traz agora um conceito minimalista a ser expandido pelas mazelas sociais e por um ligeiro toque lúdico de esperança. Características que quase todos os filmes romenos costumam trabalhar. Mas no caso de “O Tesouro”, este minimalismo pode ser uma faca de dois gumes.

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O protagonista é um homem de classe média baixa que embarca na maluquice de um vizinho endividado em cavar um tesouro de família do quintal de uma antiga propriedade, mesmo sob ameaça de o governo se apoderar de tudo por pesadas leis, alegando que qualquer coisa desenterrada pertence ao Estado. Paralelamente, é a subtrama dos ensinamentos ao filho que o protagonista prega sobre justiça social, através do mito de Robin Hood, que dará sentido ao filme como algo maior do que se propõe. O argumento original é excelente em sua simplicidade, porém a execução deixa um pouco a desejar. Talvez auto embevecido pelo minimalismo de filmar, três quintos do filme se vão apenas na redundante procura pelo tesouro, como se quisesse botar à prova os valores dos homens que o procuram, mas falhando em passar identificação ou interesse quanto às personalidades exploradas. Tanto no conteúdo de personagens quanto nos enquadramentos de câmera, insossos e repetitivos, a não ser quando a escavação adentra a noite, e a iluminação (ou falta dela, bem como de ética e ombridade entre os homens) se torna mais instigante. Mas não o bastante para tirar da cabeça o irritante zumbido do detector de metais por uns quarenta minutos de projeção.

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É a cena final que resgata o filme do marasmo, catalisando os ensinamentos ao filho com a metáfora de Robin Hood perante o que a sociedade romena está passando de verdade. Ainda assim não chega a ser um demérito para a ascendente filmografia romena.

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