O Verão de Adam

Forte candidato a pior filme de 2019: Errado de tantas formas que é difícil saber por onde começar

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12 de fevereiro de 2020

Atenção: Este texto contém possíveis spoilers sobre o filme, que só foi exibido no Brasil em Festivais até o momento, mas tem previsão de estreia para 2020, sem data certa ainda.

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O Verão de Adam, filme de estreia do diretor Rhys Ernest baseado na obra homônima da escritora americana Ariel Schrag (também redatora da série The L Word), possui uma trama aparentemente simples, mas sua análise é complexa. A história se passa em 2006 e tem como personagem principal Adam (interpretado por Nicholas Alexander), um adolescente solitário e “fora do padrão” que decide passar o verão em Nova York com a irmã universitária, a jovem ativista e homossexual Casey, vivida por Margaret Qualley (Fosse/Verdon e Seberg).

Exibido em Sundance, o filme dividiu opiniões e causou polêmicas pela maneira como abordou questões relativas à cultura LGBTQ+. Ao ser exibido meses depois no Festival do Rio, a repercussão não foi diferente; mesmo com algumas boas cenas e um elenco com inúmeros artistas conhecidos por promoverem a representatividade trans no audiovisual com ótimas atuações, O Verão de Adam deixou um “gosto agre” ao fim de seus 95 minutos.

O incômodo pessoal com a trama exposta foi tamanho, que sinto a rara necessidade de me expressar usando a 1ª pessoa em um texto crítico. Na qualidade de mulher cis e hetero, não me sinto confortável em analisar profundamente questões relativas ao universo LGBTQ+ ou padrões heteronormativos, por estes não serem meu lugar de fala. Mas como pessoa e crítica, reconheço a leviandade na qual a transexualidade foi abordada no filme.

A comunidade trans luta há décadas por seus direitos e reconhecimento, sendo o ano de 2006 – quando se passa a trama – um marco positivo destes esforços e também de avanços nos estudos de gênero. Assim sendo, a produção propor que sua personagem principal – um homem hetero e cis – FINJA ser trans, utilizando-se inclusive de artifícios físicos externos para ter relações sexuais com uma jovem homossexual, ultrapassa limites claros do que é ofensivo e desrespeitoso para com toda uma comunidade, desvalorizando e ridicularizando toda sua história.

Porém, como mulher que sou, não consigo mensurar o desrespeito e abuso que é um homem utilizar-se de tal “artifício” para fins sexuais. Questiono-me até quando o audiovisual irá romantizar mentiras e falhas gravíssimas de caráter – que ocorrem neste caso – com a justificativa de que algo tão grotesco foi feito em prol de paixão e/ou amor.

Recentemente, o ator Penn Badgley, que interpreta o stalker Joe Goldberg na série You (Netflix) veio à público pedir as pessoas que não gostem ou defendam seu personagem. Mesmo com sinais claros de abuso, sadismo e psicopatia, houve quem defendesse que todas as ações de Joe eram movidas por amor. Infelizmente, outros inúmeros casos semelhantes poderiam ser citados, como Christian Gray da franquia 50 tons de cinza, por exemplo.

Em O Verão de Adam o fator agravante é que mesmo consciente de suas atitudes errôneas, em nenhum momento o protagonista sofre consequências provenientes delas. Não há uma “moral da história” ou uma redenção. Há a tentativa de atenuar a gravidade do que foi feito com a admissão da namorada de Adam, Gillian (interpretada por Bobbi Salvör Menuez), de que sempre soube a verdade, em um daqueles casos é possível piorar o que já estava complicado.

No que diz respeito à estrutura do filme, também encontramos grandes falhas. Entre o 1º e 2º atos a trama parece se encaminhar para um possível romance entre Adam e Ethan (em uma ótima atuação de Leo Sheng), com um desenvolvimento diferente das personagens. Porém, em apenas uma cena há uma mudança completa de direção quando ele conhece Gillian, confundindo e deixando o expectador perdido nos acontecimentos.

Com exceção de Adam, as demais personagens são exploradas superficialmente, o que faz com que suas tramas pareçam fracas e sem sentido. Inúmeras temáticas pertinentes ao universo LGBTQ+ como aceitação pessoal e familiar, violência, homofobia e até mesmo questões éticas são lançadas de forma solta na história, sem nenhum tipo de “costura” ou desenvolvimento, reduzindo imensuravelmente seu valor e impacto.

Concluindo, não saberia dizer se a grande questão em O Verão de Adam foi uma má adaptação da obra literária, pois não a li, mas o contexto como um todo me soou indigesto e ofensivo de diferentes formas. Ressalto a importância do aumento do número de produções voltadas para o público LGBTQ+, que abordem questões pertinentes de forma ética, responsável e agregadora. Contudo, o filme de Rhys Ernest qualificou-se como um insulto aos mais diferentes tipos de público e um desserviço ao público trans, principalmente.

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